{"id":1531,"date":"2015-10-18T18:21:56","date_gmt":"2015-10-18T18:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/jralmeida.com\/?p=1531"},"modified":"2015-10-18T18:23:35","modified_gmt":"2015-10-18T18:23:35","slug":"troika-como-a-imprensa-economica-percepcionou-a-aplicacao-do-memorando-de-entendimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jralmeida.com\/?p=1531","title":{"rendered":"TROIKA: Como a imprensa econ\u00f3mica percepcionou a aplica\u00e7\u00e3o do Memorando de Entendimento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Shoot the Messenger<\/em> (Mate-se o mensageiro)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cO comportamento de rebanho \u00e9 uma das teorias mais demonstradas da economia. Ele revela que gestores, agentes econ\u00f3micos, pol\u00edticos e banqueiros seguem as modas uns dos outros. E que normalmente \u00e9 isso que leva toda a gente ao fundo no final&#8230;\u201d (Pedro Santos Guerreiro, 28\/7\/2011)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<p>A partir de 2010, mas sobretudo desde Maio de 2011 com o pedido de ajuda financeira ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), Comiss\u00e3o Europeia e Banco Central Europeu (BCE), foi imposta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o portuguesa uma pol\u00edtica econ\u00f3mica visando corrigir diversos desequil\u00edbrios &#8211; um d\u00e9fice externo corrente pr\u00f3ximo dos 10% do PIB, um d\u00e9fice or\u00e7amental superior a 11% do PIB e uma d\u00edvida p\u00fablica no limiar dos 100% do PIB. Essa pol\u00edtica contraiu o rendimento \u2013 por via fiscal e corte de apoios sociais -, visando retrair as importa\u00e7\u00f5es, reequilibrar as contas p\u00fablicas e redireccionar o investimento para a exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre o 1\u00ba semestre de 2010 e o 1\u00ba semestre de 2014, o PIB caiu 7% e o consumo privado 9,3%. Nesse mesmo per\u00edodo, Portugal perdeu ao redor de 530 mil postos de trabalho<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A taxa de desemprego subiu de 10,6% para 14,5%. O n\u00famero de pessoas que estavam numa situa\u00e7\u00e3o de desemprego efectivo (incluindo os inactivos desencorajados ou indispon\u00edveis, e o subemprego) subiu de um milh\u00e3o para 1,3 milh\u00f5es de pessoas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A popula\u00e7\u00e3o activa retraiu-se, passando de 5,46 milh\u00f5es para 5,22 milh\u00f5es de pessoas, numa dimens\u00e3o semelhante \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o total, delapidada por uma forte emigra\u00e7\u00e3o, sobretudo de m\u00e3o-de-obra qualificada. Os sal\u00e1rios perderam 2,7 pontos percentuais no conjunto do PIB (de 46,5 para 43,7%), enquanto os excedentes brutos de explora\u00e7\u00e3o das empresas ganharam 1,9 pontos percentuais (ao passar de 42,2% para 44,1%). Em termos nominais, o montante global de remunera\u00e7\u00f5es reduziu-se em 3,9 mil milh\u00f5es de euros. Apesar da quebra registada, sal\u00e1rios e pens\u00f5es contribu\u00edram mais para as receitas or\u00e7amentais: passaram de 56% para 71% das receitas fiscais sobre o rendimento e de 22% para 32% do total das receitas fiscais do Estado. J\u00e1 as empresas tiveram uma redu\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o fiscal: desceram de 44 para 27% das receitas fiscais sobre o rendimento e de 17% para 12% das receitas fiscais do Estado. Nas contas do Estado, o d\u00e9fice reduziu-se de 9,8% do PIB em 2010 para 4,5% em 2014 (menos 8 mil milh\u00f5es de euros), mas a d\u00edvida p\u00fablica subiu, nesse per\u00edodo, de 94% para 130% para PIB (quase 40 mil milh\u00f5es de euros). Fruto da quebra do PIB e do consumo total e do investimento, as trocas comerciais externas (exporta\u00e7\u00f5es menos importa\u00e7\u00f5es) passaram de um d\u00e9fice de 9,3% do PIB no 1\u00ba semestre de 2010, atingindo mesmo um <em>super\u00e1vite<\/em> no 1\u00ba trimestre de 2013.<\/p>\n<p>Um ajustamento econ\u00f3mico desta dimens\u00e3o, como n\u00e3o houve outro na Hist\u00f3ria recente de Portugal, provoca for\u00e7osamente feridas profundas no tecido social e desarticular anteriores estruturas econ\u00f3micas e sociais. At\u00e9 irremediavelmente. Por isso, \u00e9 essencial compreender at\u00e9 que ponto a sociedade tomou consci\u00eancia do que se passou. Parte essencial dessa consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 obtida atrav\u00e9s do trabalho de resson\u00e2ncia social dos jornalistas, difundido e reproduzido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, tido como \u201cs\u00edntese\u201d do que se passa. Independentemente das raz\u00f5es que levam os jornalistas a percepcionar os factos de uma dada forma \u2013 e n\u00e3o de outras \u2013, independentemente de saber at\u00e9 que ponto a consci\u00eancia dos jornalistas foi interiorizada pela popula\u00e7\u00e3o ou apenas condicionou a consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o, um dos cap\u00edtulos obrigat\u00f3rios da an\u00e1lise deste per\u00edodo hist\u00f3rico da sociedade portuguesa passa por entender como foi que os jornalistas expressaram o que pensaram sobre o que viram.<\/p>\n<p>Como viram a necessidade da interven\u00e7\u00e3o da troika? Que diagn\u00f3stico foi consciencializado como causa de uma das mais violentas interven\u00e7\u00f5es externas em Portugal, sem que se tivesse sentido o maior arrojo patri\u00f3tico, tido como uma das mais vincadas caracter\u00edsticas nacionais? Como foi que se entendeu um rol de medidas de corte abrupto de direitos adquiridos, do rendimento da popula\u00e7\u00e3o em geral? Como evoluiu o seu pensamento ao longo dos 3 anos de interven\u00e7\u00e3o da troika? Quais foram as vagas de pensamento que se criaram e desfizeram? E, finalmente, qual foi o balan\u00e7o geral da efic\u00e1cia dessa interven\u00e7\u00e3o? Foi um ide\u00e1rio que funcionou na realidade portuguesa, uma utopia conseguida, um programa eficaz? Ou foi uma experi\u00eancia falhada e que, por isso, teve consequ\u00eancias gravosas para a popula\u00e7\u00e3o, para o funcionamento a prazo do pa\u00eds e que, por isso, deveria ser analisada para evitar no futuro situa\u00e7\u00f5es semelhantes?<\/p>\n<p>Este \u00e9 o objectivo deste trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. Metodologia<\/strong><\/p>\n<p>Como saber o que pensaram os jornalistas? Uma forma expedita \u00e9 seguir o que os jornalistas escreveram ao longo do per\u00edodo em an\u00e1lise, em artigos de opini\u00e3o, divulgados na comunica\u00e7\u00e3o social e cujas ideias acabam por ser repetidas em meios de divulga\u00e7\u00e3o massiva como canais de televis\u00e3o e r\u00e1dio. A opini\u00e3o dos jornalistas \u2013 e sobretudo dos jornalistas especializados \u2013 acaba por ser a forma de solver um problema sentido tanto pelos \u201cconsumidores de informa\u00e7\u00e3o\u201d como pelos \u201cprodutores de informa\u00e7\u00e3o\u201d: h\u00e1 cada vez mais informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, mas cada vez menos tempo para a sua digest\u00e3o e para a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma. E da\u00ed o risco do mimetismo de informa\u00e7\u00e3o, como forma de esvaziar uma concorr\u00eancia exacerbada entre meios de comunica\u00e7\u00e3o social, em luta por um <em>bolo<\/em> cada vez mais reduzido de publicidade. Neste contexto, a opini\u00e3o dos jornalistas \u2013 nomeadamente a dos jornalistas da imprensa especializada, econ\u00f3mica \u2013 pode ser essencial na forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o dos jornalistas sem forma\u00e7\u00e3o especializada, bem como dos jornalistas dos meios de comunica\u00e7\u00e3o mais imediatistas &#8211; r\u00e1dio, televis\u00e3o e online. No \u201cnevoeiro da guerra\u201d, a opini\u00e3o escrita especializada acaba por ser o <em>pivot<\/em> da forma como se \u201cdeve\u201d olhar para os acontecimentos.<\/p>\n<p>Foi essa a raz\u00e3o que levou \u00e0 op\u00e7\u00e3o de seguir seis jornalistas com estas caracter\u00edsticas e ao mesmo tempo que tivessem acesso a formas de divulga\u00e7\u00e3o de massas, como r\u00e1dio ou televis\u00e3o. Foram escolhidos:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Pedro Santos Guerreiro (PSG)<\/strong>: formado em gest\u00e3o pelo Instituto Superior de Gest\u00e3o (1996), tem um MBA pela Universidade Nova de Lisboa (2001\/03), foi director do Jornal de Neg\u00f3cios de 1997 a 2013, a partir da\u00ed, director executivo do jornal Expresso, e \u00e9 regularmente chamado a comentar os acontecimento em diversos canais televisivos;<\/li>\n<li><strong>Helena Garrido (HG): <\/strong>formada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa (1979\/83), p\u00f3s-graduou-se na mesma Universidade, foi orientada por V\u00edtor Gaspar, foi directora adjunta do jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias (2005\/07), directora adjunta Jornal de Neg\u00f3cios (2008\/13) e, finalmente directora do mesmo jornal (desde 2013, em substitui\u00e7\u00e3o de Pedro Santos Guerreiro). \u00c9 muitas vezes chamada a comentar a realidade em diversos canais de televis\u00e3o;<\/li>\n<li><strong>Camilo Louren\u00e7o (CL): <\/strong>\u00e9 licenciado em Direito Econ\u00f3mico pela Universidade de Lisboa, passou pela Universidade de Columbia em Nova Iorque e University of Michigan, onde se especializou em jornalismo financeiro, e pela Universidade Cat\u00f3lica. \u00c9 jornalista desde 1987, passou por diversos jornais, foi redactor principal do Seman\u00e1rio Econ\u00f3mico e coordenador da editoria Nacional no Di\u00e1rio Econ\u00f3mico, director de diversas revistas econ\u00f3micas, director editorial de diversas revistas do grupo Abril\/Controjornal, comentador de assuntos econ\u00f3micos na r\u00e1dio (Radio Capital, RCP, Media Capital Radios, dois programas na M80), comentador da RTP e RTP informa\u00e7\u00e3o (com um programa) e TVI. Desde 2010, faz palestras de forma\u00e7\u00e3o a quadros m\u00e9dios e superiores, na \u00e1rea de Lideran\u00e7a, Marketing e Gest\u00e3o. Autor de tr\u00eas livros: \u201cComo esticar o Sal\u00e1rio e Encurtar o M\u00eas\u201d (2009), \u201cBasta!\u201d (2012), \u201cSaiam da frente\u201d (2013).<\/li>\n<li><strong>Ant\u00f3nio Costa (AC)<\/strong>: formado em jornalismo, foi jornalista em diversos jornais, director adjunto da ag\u00eancia Lusa e director do jornal Di\u00e1rio Econ\u00f3mico (2008\/15), \u00e9 habitualmente convidado de diversos canais de televis\u00e3o, \u00e9 uma presen\u00e7a regular num coment\u00e1rio radiof\u00f3nico na Antena 1 da RDP e \u00e9 comentador actual na TVI;<\/li>\n<li><strong>Jo\u00e3o Vieira Pereira (JVP)<\/strong>: formado em Economia pelo ISEG e com uma passagem pela Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa e Northwestern University \u2013 Kellog School of Management (2011), foi director do jornal Seman\u00e1rio Econ\u00f3mico (2003-2006) e \u00e9 director adjunto do jornal Expresso e da revista Exame (desde 2006), respons\u00e1vel pelo suplemento de Economia desse jornal e convidado regularmente pela SIC (televis\u00e3o do mesmo grupo econ\u00f3mico) para comentar os acontecimentos;<\/li>\n<li><strong>Nicolau Santos (NS)<\/strong>: \u00e9 jornalista de 1978, um dos mais antigos jornalistas de economia do pa\u00eds, formado em Economia pelo ISEG (1979\/80), editor de Economia na Ag\u00eancia ANOP, fundador do jornal Seman\u00e1rio Econ\u00f3mico em 1987 e do Di\u00e1rio Econ\u00f3mico, director do jornal P\u00fablico, foi colaborador e respons\u00e1vel de programas na RTP, comentador econ\u00f3mico da TSF, \u00e9 actualmente director adjunto do jornal Expresso, respons\u00e1veis pelo programa \u201cExpresso da Meia-Noite\u201d na SIC Not\u00edcias, e uma presen\u00e7a regular num coment\u00e1rio radiof\u00f3nico na TSF na Antena 1 da RDP.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Foram lidas e analisadas todas as suas cr\u00f3nicas publicadas em jornais entre 1\/1\/2010 e 30\/6\/ 2014.<\/p>\n<p>De 1\/1\/2010 a 31\/12\/2010, per\u00edodo anterior \u00e0 entrada da <em>troika<\/em> em Portugal, extraiu-se as ideias principais de cada cr\u00f3nica e exp\u00f4s-se a sua distribui\u00e7\u00e3o numa <em>timeline<\/em>, como forma de perceber a sua distribui\u00e7\u00e3o ao longo do tempo e visualizar rapidamente os padr\u00f5es de evolu\u00e7\u00e3o dos principais temas abordados ao longo desse per\u00edodo. Essa distribui\u00e7\u00e3o torna vis\u00edvel o momento em que um dado tipo de ideia tendeu a aparecer e a desaparecer, dando lugar a outra ideia. Esta abordagem, se permite a recolha de in\u00fameros elementos de an\u00e1lise, torna por\u00e9m a \u201cnuvem\u201d de estudo demasiado vasta, dado a dimens\u00e3o do per\u00edodo. Como forma de obter resultados semelhantes com uma abordagem mais pragm\u00e1tica e adequada ao \u00e2mbito do projecto, optou-se \u2013 para o per\u00edodo entre 1\/1\/2011 e 30\/6\/2014 &#8211; por procurar respostas nos textos publicados \u00e0s seguintes quest\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Origem da crise<\/strong>: foi a crise desencadeada por comportamentos dos agentes econ\u00f3micos (causa comportamental)? Ou foi fruto de problemas estruturais (causa estrutural)?<\/li>\n<li><strong>Necessidade da troika: <\/strong>Foi inevit\u00e1vel a interven\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es da <em>troika<\/em>? E foi desej\u00e1vel?<\/li>\n<li><strong>Austeridade:<\/strong> Foram inevit\u00e1veis as medidas de austeridade aprovadas? E foram as desej\u00e1veis?<\/li>\n<li><strong>Memorando de Entendimento:<\/strong> Deram resultado as medidas constantes nas diversas vers\u00f5es do Memorando de Entendimento? E foram as diversas vers\u00f5es do Memorando devidamente aplicadas conforme o previsto?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para cada resposta encontrada, atribuiu-se uma pontua\u00e7\u00e3o: entre -3 e 3. A gradua\u00e7\u00e3o teve em conta, sobretudo, a maior ou menor clareza ou veem\u00eancia das opini\u00f5es face \u00e0s quest\u00f5es colocadas e \u00e0s respostas expressas. Obviamente que existe neste tipo de trabalho uma grelha <em>subjectiva<\/em> do investigador na an\u00e1lise dos textos e da forma como os autores respondem \u00e0s quest\u00f5es. A pontua\u00e7\u00e3o assentou na percep\u00e7\u00e3o que o texto deixou no investigador e, por isso, um dado assunto abordado recebeu valores distintos, de texto para texto de um mesmo autor. A import\u00e2ncia da tarefa centrou-se em perceber qual a percep\u00e7\u00e3o com que ficaria um poss\u00edvel leitor, caso lesse cada um dos textos como se fosse o primeiro do autor sobre uma dada mat\u00e9ria. Por outro lado, poder-se-\u00e1 acrescentar que esse \u201cenviesamento\u201d do investigador \u00e9 uma constante ao longo da leitura dos artigos e que, por isso, a oscila\u00e7\u00e3o na pontua\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise corresponde sobretudo \u00e0 varia\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es dos autores ou \u00e0 diferente clareza de opini\u00f5es dos autores. De qualquer forma, ter-se-\u00e1 de ter cuidado na an\u00e1lise da quantifica\u00e7\u00e3o feita que, na verdade, dever\u00e1 ser mais de ordem qualitativa. A quantifica\u00e7\u00e3o do n\u00famero de apari\u00e7\u00f5es nos textos lidos apenas \u00e9 relevante como indicador do espa\u00e7o que cada uma das quest\u00f5es ocupou nos diversos suportes noticiosos e, por isso, at\u00e9 que ponto \u00e9 que a \u201cmassa\u201d de textos, de repeti\u00e7\u00f5es, de acumula\u00e7\u00e3o de respostas, poder\u00e1 ter sido importante para a formula\u00e7\u00e3o de uma percep\u00e7\u00e3o dos leitores, nem que fosse pela for\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o. Igualmente por essas raz\u00f5es, cr\u00ea-se que o interesse deste trabalho se encontra mais na exemplifica\u00e7\u00e3o das ideias retiradas dos textos, que podem ser ilustrativas da forma como se foram formando as diferentes percep\u00e7\u00f5es da crise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. <strong>A crise de 2010 como pre\u00e2mbulo de uma crise maior <\/strong><\/p>\n<p>O ano de 2010 ficou marcado pelo rescaldo na crise financeira norte-americana de 2007\/08 que, sobretudo ap\u00f3s a fal\u00eancia do banco Lehmon Brothers, se repercutiu pela Europa e obrigou os diversos Estados a assumir os custos da protec\u00e7\u00e3o do sector financeiro, com repercuss\u00f5es no desequil\u00edbrio das contas or\u00e7amentais p\u00fablicas e nas economias. Para o pensamento dos jornalistas do painel, a julgar pelas suas an\u00e1lises, concorreram diversos acontecimentos internacionais: 1) a hesita\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias comunit\u00e1rias em combater a recess\u00e3o, numa perturba\u00e7\u00e3o que se avolumou no tempo e que veio a sofrer uma forte reviravolta, enveredando-se por um programa austerit\u00e1rio por toda a Europa; 2) a press\u00e3o dos mercados financeiros sobre os t\u00edtulos de d\u00edvida p\u00fablica de v\u00e1rios pa\u00edses; 3) a explos\u00e3o da crise grega, com a den\u00fancia pela Comiss\u00e3o Europeia, a 12\/1\/2010, das irregularidades sistem\u00e1ticas cometidas pelas autoridades gregas, passando pelo empr\u00e9stimo de 30 mil milh\u00f5es de euros a 11\/4\/2010, pelo pedido formal de apoio financeiro a 23\/4\/2010, at\u00e9 culminar com o acordo de empr\u00e9stimo de 110 mil milh\u00f5es de euros por tr\u00eas anos em troca de cortes na despesa or\u00e7amental de 30 mil milh\u00f5es de euros, com fortes ondas de impacto noutros pa\u00edses, como foi Portugal; 4) a apresenta\u00e7\u00e3o a 21\/11\/2010 do pedido formal do governo irland\u00eas de apoio financeiro.<\/p>\n<p>Esta traject\u00f3ria em plano descendente at\u00e9 \u00e0 interven\u00e7\u00e3o externa colou-se ao trajecto nacional. Durante o per\u00edodo eleitoral de Outubro de 2009, o governo S\u00f3crates sustentou que a crise dificilmente desembarcaria em Portugal e que as contas or\u00e7amentais estavam controladas, mas logo a partir de Janeiro de 2009, a recess\u00e3o europeia fez estremecer a economia nacional e o desemprego em Portugal subiu exponencialmente. No ano de 2010, a percep\u00e7\u00e3o pelos jornalistas dos momentos de pr\u00e9-entrada da <em>troika<\/em> em Portugal ficaram marcados pelos seguintes factos: 1) a vit\u00f3ria pelo PS das elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2009, sem maioria absoluta e um Or\u00e7amento de Estado (OE) para 2010, aprovado apenas a 12\/3\/2010, assumindo um d\u00e9fice para 2009 muito superior ao reiterado na campanha eleitoral<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>; 2) o an\u00fancio a 6\/3\/2010 da aprova\u00e7\u00e3o pelo governo portugu\u00eas de o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 2010-2013 (que viria a ser conhecido por PEC1), com as primeiras medidas de<em> desvaloriza\u00e7\u00e3o interna<\/em> e de privatiza\u00e7\u00e3o de activos p\u00fablicos, por forma a que levar o d\u00e9fice or\u00e7amental para 5,5% do PIB em 2011 at\u00e9 2,8% em 2013; 3) o ataque sistem\u00e1tico das ag\u00eancias de <em>rating<\/em> \u00e0 nota\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos de d\u00edvida p\u00fablica portuguesa, corroborando as cr\u00edticas da Comiss\u00e3o Europeia sobre a insufici\u00eancia das medidas adoptadas; 4) o an\u00fancio a 27\/4\/2010 de um segundo pacote de medidas (PEC2), com o acordo entre PS e PSD para um aumento de impostos; 5) o corte a 26\/5\/2010 dos apoios anti-crise criados meses antes; 6) a exig\u00eancia da Comiss\u00e3o Europeia a Portugal e Espanha para reformas estruturais, nomeadamente no mercado de trabalho; 7) a entrada em vigor a 1\/8\/2010 do que ficaria conhecido pela \u201ccondi\u00e7\u00e3o de recursos\u201d, que limitou a obten\u00e7\u00e3o de apoios sociais; 8) a aprova\u00e7\u00e3o a 29\/9\/2010 de um novo pacote de medidas (PEC3); 10) a realiza\u00e7\u00e3o de uma greve geral em Portugal, juntando historicamente as duas centrais sindicais, embora n\u00e3o evitando, passados dois dias, a aprova\u00e7\u00e3o do PEC3 pelo Parlamento, viabilizado pela direita, e que a 15\/12\/2010 fossem aprovadas 50 medidas de austeridade; 11) a publicita\u00e7\u00e3o a 8\/1\/2011 das press\u00f5es da Alemanha e Fran\u00e7a para que Portugal aceite apoio financeiro; 12) a aprova\u00e7\u00e3o a 11\/3\/2011, de um novo pacote de medidas de austeridade (conhecido por PEC4); 13) a realiza\u00e7\u00e3o a 12\/3\/2011 de uma grande manifesta\u00e7\u00e3o convocada pela denominada \u201cgera\u00e7\u00e3o \u00e0 rasca\u201d; 14) o an\u00fancio a 9\/3\/2011 de um compromisso entre as confedera\u00e7\u00f5es patronais e da UGT para um acordo de reformas estruturais que viria a ser celebrado a 22\/3\/2011 (Acordo Tripartido para a Competitividade e Emprego); 15) o chumbo pelo Parlamento, a 13\/3\/2011, do PEC4 e a demiss\u00e3o subsequente do governo S\u00f3crates, abrindo a porta a uma negocia\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es da <em>troika<\/em> que culminaria com o pedido formal de apoio financeiro a 6\/4\/2011.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pidas destes acontecimentos, em paralelo com a sucessiva derrapagem de todas as metas tra\u00e7adas nos diversos documentos oficiais, tornaram-se na imagem desse per\u00edodo. Quando se analisa os textos dos jornalistas escritos em 2010, verifica-se um pendor muito forte a justificar medidas de austeridade mais dr\u00e1sticas, for\u00e7ando a uma aprova\u00e7\u00e3o mais c\u00e9lere e radical.<\/p>\n<p>Das cerca de mil refer\u00eancias assinaladas nas suas cr\u00f3nicas de 2010, quase 20% refere-se a um diagn\u00f3stico que imp\u00f5e medidas de austeridade e uma forte contrac\u00e7\u00e3o or\u00e7amental. Al\u00e9m dessas, mais de 15% defendem a adop\u00e7\u00e3o urg\u00eancia de medidas concretas de austeridade e quase outro tanto a sustentar a inevitabilidade dessas medidas. Esta terapia foi alicer\u00e7ada na ideia da necessidade de Portugal mudar de modelo econ\u00f3mico, j\u00e1 que o vigente era gerador de desequil\u00edbrios externos e or\u00e7amentais. Sobre as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-partid\u00e1rias, muito espa\u00e7o foi ocupado a defender uma alian\u00e7a entre PS e a coliga\u00e7\u00e3o de direita e, nos \u00faltimos tempos, a criticar a pobreza das elites pol\u00edticas, o que parece representar uma antec\u00e2mara da defesa posterior da vinda da <em>troika<\/em>, como instrumento necess\u00e1rio para a concretiza\u00e7\u00e3o das medidas que n\u00f3s, portugueses, n\u00e3o ser\u00edamos capazes de executar.<\/p>\n<p>Em tra\u00e7os globais, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar diferentes \u201cvagas\u201d de preocupa\u00e7\u00f5es. Primeiro, h\u00e1 as \u201c<strong>vagas\u201d transversais, <\/strong>que se prolongam ao longo do per\u00edodo at\u00e9 \u00e0 entrada da <em>troika<\/em>, embora umas tenham sido mais express\u00e3o do que outras: 1) \u00e9 necess\u00e1rio um entendimento do PS com os partidos de direita (\u201carco da governa\u00e7\u00e3o\u201d); 2) \u201cn\u00e3o soubemos tomar conta de n\u00f3s\u201d e agora temos o que merecemos \u2013 \u201ca culpa \u00e9 nossa\u201d, \u201cvivemos acima das nossas possibilidades\u201d; 3) \u201ctemos de fazer o que os mercados querem\u201d; 4) para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio uma pol\u00edtica de austeridade, que permita a economia melhorar depois. H\u00e1, pois, uma tonalidade subjacente que \u00e9 a de que n\u00e3o h\u00e1 alternativa a uma pol\u00edtica de austeridade e, por isso, a contesta\u00e7\u00e3o de nada vale. \u00c9 preciso fazer o que \u00e9 preciso.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-IMAGEM1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1532 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-IMAGEM1-300x154.png\" alt=\"VAGAS IMAGEM1\" width=\"477\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-IMAGEM1-300x154.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-IMAGEM1.png 691w\" sizes=\"auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Muito da poss\u00edvel efic\u00e1cia do discurso dos jornalistas deve ficar a dever-se \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de uma dada ideia ao longo do tempo. Na impossibilidade f\u00edsica de reproduzir esse efeito, dar-se-\u00e1 exemplos dessa acumula\u00e7\u00e3o de ideias em 2010.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: &#8220;A culpa \u00e9 nossa&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cQuando gastamos mais do que produzimos, h\u00e1 sempre um momento em que algu\u00e9m tem de pagar a factura\u201d (CL, 5\/1\/2010). \u201cVamos ter de cortar nos nossos consumos presentes, alinhando-os ao rendimento actual, ao que j\u00e1 gast\u00e1mos no passado e ao pouco que vamos crescer no futuro.\u201d (HG, 3\/3\/2010). \u201cHoje n\u00e3o estar\u00edamos preocupados com as ag\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o de risco se tiv\u00e9ssemos tido mais ju\u00edzos a partir de 1995\u201d (HG, 22\/3\/2010). \u201cFalh\u00e1mos em tomar conta de n\u00f3s mesmos, agora outros poder\u00e3o tomar-nos a soberania econ\u00f3mica. Talvez seja disso que precisamos\u201d (PSG, 20\/4\/2010). \u201cCometemos erros graves e temos que os corrigir rapidamente\u201d (NS, 24\/4\/2010). \u201cComo afirmou Nuno Amado, presidente do Santander, ao Di\u00e1rio Econ\u00f3mico: o Pa\u00eds p\u00f4s-se a jeito\u201d (AC, 1\/5\/2010). \u201cPusemo-nos a jeito. Que falta de jeito, a nossa. Alambaz\u00e1mo-nos a cr\u00e9dito e fomos o Pantagruel das receitas falhadas. Como algu\u00e9m dizia ontem, o \u2018h\u00e1 vida al\u00e9m do d\u00e9fice\u2019 deu nisto: d\u00e9fice al\u00e9m da vida\u201d (PSG, 13\/5\/2010). \u201cOs maus da fita n\u00e3o s\u00e3o os mercados financeiros, somos n\u00f3s\u201d (HG, 23\/9\/2010). \u201cEste OE devia vir acompanhado de um pedido de desculpas. Mas traz apenas uma anota\u00e7\u00e3o colada, que diz: \u00c9 mau mas tem que ser. \u00c9 mau? \u00c9. Tem de ser? Tem\u201d (PSG, 18\/10\/2010). \u201cSupostamente, somos capazes de resolver, sozinhos os nossos problemas. N\u00e3o somos, n\u00e3o. E quanto mais tempo levarmos a perceber isso, pior\u201d (CL, 16\/11\/2010).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: &#8220;Temos de fazer o que os mercados querem&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cPor mais viril que se insinue, a pol\u00edtica partid\u00e1ria \u00e9 o sexo fraco que est\u00e1 casado com a economia. Quem manda s\u00e3o os mercados\u201d (PSG, 21\/1\/2010). \u201cEst\u00e1 viabilizado o OE que mais dor pode causar aos portugueses, n\u00e3o por esta ou aquela medida, mas pelos sinais que vai (ou n\u00e3o) dar aos mercados financeiros internacionais\u201d (HG, 25\/1\/2010). \u201cSeja como for, n\u00e3o tem outra sa\u00edda sen\u00e3o surpreender positivamente os mercados\u201d (CL, 5\/3\/2011). \u201cEntre o importante e o urgente, est\u00e1 atacado o urgente: ser levado a s\u00e9rio pelos mercados financeiros internacionais\u201d (PSG, 11\/3\/2010) \u201cQualquer observador isento sabe que existem diferen\u00e7as significativas entre as duas economias [Portugal e Gr\u00e9cia]. O problema \u00e9 que os mercados n\u00e3o as v\u00eam (&#8230;) \u00c9 injusto? \u00c9. But life is tough\u201d (CL, 20\/4\/2010). \u201cN\u00e3o h\u00e1 margem de erro. Os mercados internacionais n\u00e3o v\u00e3o perdoar qualquer deslize\u201d (AC, 22\/7\/2010). \u201cOs nossos credores est\u00e3o a perder a paci\u00eancia (&#8230;). O OE \u00e9 a bala de prata que resta\u201d (PSG, 17\/9\/2010). \u201cComo os mercados j\u00e1 deixaram claro, (&#8230;) s\u00e3o necess\u00e1rios resultados\u201d (AC, 21\/9\/2010). \u201cO Presidente deveria aconselhar o Governo\/PS e o PSD a calarem-se. (&#8230;) O espect\u00e1culo que est\u00e3o a dar, em p\u00fablico, n\u00e3o contribuiu para a defesa do que ambos dizem querer defender, a imagem de Portugal junto dos mercados e dos investidores\u201d (AC, 27\/9\/2010).\u201cFoi o ministro das Finan\u00e7as quem ontem governou. E s\u00f3 temos a desejar que continue a s\u00ea-lo. Porque este pacote acalma os mercados\u201d (PSG, 30\/9\/2010). \u201cO OE \u00e9 mau, todos o sabem, mas indispens\u00e1vel para evitar que o Pa\u00eds perca credibilidade nos mercados internacionais\u201d (AC, 30\/10(2010). \u201cA segunda li\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o vale a pena lutar contra os mercados\u201d (CL, 23\/11\/2010).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: \u00c9 precisarmos austeridade para depois melhorarmos<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO pr\u00f3ximo OE precisa de cortar despesas e aumentar receitas &#8211; e resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o das artimanhas. Congelar sal\u00e1rios, progress\u00f5es. (&#8230;) Mexer nos impostos. Vender patrim\u00f3nio\u201d (PSG, 6\/1\/2010). \u201cA certeza de que \u00e9 preciso fazer ao Pa\u00eds o que se faz \u00e0s \u00e1rvores: cortar para crescer melhor\u201d (PSG, 27\/1\/2010). \u201cEst\u00e1 na hora de os liberais sa\u00edrem da toca. Em Portugal, j\u00e1 conclu\u00edmos que o Estado \u00e9 caro, insustent\u00e1vel e ineficiente. N\u00e3o podemos pagar tantos sal\u00e1rios, pens\u00f5es, riscos a privados, filigranas partid\u00e1rias, subs\u00eddios, incentivos, apoios, enlatados sob o chap\u00e9u-de-chuva da protec\u00e7\u00e3o estatal. N\u00e3o \u00e9 uma ideologia, \u00e9 viabilidade\u201d (PSG, 3\/2\/2010). \u201cAt\u00e9 porque, se n\u00e3o o fizermos, outros nos obrigar\u00e3o a fazer. Por isso, o an\u00fancio do congelamento dos sal\u00e1rios nas empresas p\u00fablicas \u00e9 um bom sinal. Que outros se sigam\u201d (NS, 27\/2\/2010). \u201cO Estado s\u00f3 consegue reduzir a sua d\u00edvida vendendo activos p\u00fablicos\u201d (CL, 9\/3\/2010). \u201cA boa noticia do PEC \u00e9 que ele \u00e9 mau. Mau para funcion\u00e1rios p\u00fablicos, para alguns pensionistas, para muitas fam\u00edlias da classe m\u00e9dia, para utentes de servi\u00e7os do Estado, para desempregados, para dependentes de rendimentos sociais, para investidores. N\u00e3o \u00e9 sadismo. \u00c9 porque tinha de ser\u201d (PSG, 11\/3\/2010). \u201cE o congelamento dos apoios sociais, como o RSI, reclama de todos n\u00f3s o regresso a atitudes mais solid\u00e1rias e menos dependentes do Estado no combate \u00e0 pobreza\u201d (HG, 22\/3\/2010). \u201cO melhor que poderia acontecer a Portugal era um plano \u00e0 FMI imposto pela Uni\u00e3o. Em vez desta morte lenta, ter\u00edamos uma violenta, boa e r\u00e1pida recess\u00e3o. Para voltarmos de novo a crescer com sa\u00fade\u201d (HG, 22\/4\/2010). \u201cDo Estado \u00e0s fam\u00edlias, todos vamos ter de enfrentar a realidade de sermos mais pobres do que pens\u00e1vamos. E sairemos dela menos saloios, menos deslumbrados com pal\u00e1cios in\u00fateis a que chamaram investimento p\u00fablico\u201d (HG, 22\/9\/2010). \u201cMoral da hist\u00f3ria: a recess\u00e3o \u00e9 como uma dieta que se tomou inevit\u00e1vel para equilibrar o organismo\u201d (CL, 16\/5\/2011).<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Para os jornalistas do painel, o interesse nacional confunde-se politicamente com a defesa de um governo est\u00e1vel e de um largo consenso que apenas pode ser assumido pelas for\u00e7as partid\u00e1rias que designam facilmente como sendo do \u201carco da governa\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, excluindo os partidos mais \u00e0 esquerda. Os partidos escolhidos s\u00e3o os \u201cque sabem o que \u00e9 exercer o poder\u201d e que, por isso, \u201ct\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de assumir comportamentos parlamentares mais respons\u00e1veis\u201d (HG, 18\/1\/2010). Pela forma como nasceu o Memorando, existe \u201cum contexto pol\u00edtico e econ\u00f3mico (&#8230;) prop\u00edcio a uma negocia\u00e7\u00e3o (&#8230;) entre o PS, o PSD e o CDS\u201d. E essa \u201cf\u00f3rmula\u201d deveria ali\u00e1s, \u201cpassar a ser <em>lei<\/em> em todos os or\u00e7amentos\u201d. Ou seja, excluindo a \u201cEsquerda portuguesa, o PCP e o BE\u201d porque \u201cteimam em ser partidos anti-sistema, que acrescentam muito pouco \u00e0 Democracia, par al\u00e9m de frases, <em>soundbytes<\/em> e manifesta\u00e7\u00f5es organizadas de rua\u201d (AC, 25\/1\/2010). \u00c9 como se houvesse uma for\u00e7a exterior a unir os partidos respons\u00e1veis e que se materializa na atrac\u00e7\u00e3o do PS para o grupo dos partidos \u00e0 direita. \u201cSe n\u00e3o cooperarem, a economia afunda, o FMI entra e o \u00f3nus da crise financeira recai sobre ambos\u201d (PSG, 22\/10\/2010). \u201cO Bloco Central est\u00e1 para a pol\u00edtica portuguesa como o FMI est\u00e1 para a economia. Ningu\u00e9m os quer \u2013 ou quase ningu\u00e9m\u2026 -, mas a probabilidade de recorrermos a eles, aos dois, para ultrapassarmos as crises econ\u00f3mico-financeira, social e pol\u00edtica aumenta a cada dia que passa\u201d (AC, 6\/12\/2010). \u201c\u00c9 o abismo social, econ\u00f3mico e financeiro que temos \u00e0 nossa frente se PS, PSD e CDS n\u00e3o se entenderem\u201d(HG, 11\/4\/2011).<\/p>\n<p>Agregando as diversas ideias em ideias mais fortes, com um significado mais lato, , torna-se clara a percep\u00e7\u00e3o que os jornalistas analisados tiveram em 2010.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-imagem2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1533 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/VAGAS-imagem2-300x148.png\" alt=\"VAGAS imagem2\" width=\"432\" height=\"213\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Uma ideia constante ao longo do per\u00edodo \u00e9 a de que, se houve inefic\u00e1cia das medidas, ela n\u00e3o se deveu \u00e0 <em>terapia<\/em> &#8211; que era obrigat\u00f3ria e sem alternativa \u2013 mas antes \u00e0 relut\u00e2ncia pol\u00edtica em aplicar dr\u00e1stica e resolutamente o <em>medicamento<\/em>, ainda que tivesse efeitos imediatos <em>t\u00f3xicos<\/em>. Foi esse <em>caldo<\/em> de inefic\u00e1cia e hesita\u00e7\u00e3o europeia face \u00e0 \u201cf\u00faria\u201d dos mercados que formatou o ambiente que, na maioria dos jornalistas, entroncar\u00e1 na aceita\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de uma miss\u00e3o externa, como sinal de uma clarifica\u00e7\u00e3o e de autoridade pol\u00edtica para fazer o que deve ser feito, j\u00e1 que as autoridades portuguesas se mostram incapazes.<\/p>\n<p>Esta ideia de clarifica\u00e7\u00e3o e do fim do \u201cp\u00e2ntano\u201d surge j\u00e1 em Setembro de 2010 e prolongar-se-\u00e1 por 2011, at\u00e9 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es legislativas ap\u00f3s a assinatura do Memorando de Entendimento com a <em>troika<\/em>, colocando no Governo uma coliga\u00e7\u00e3o de direita.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Vagas-imagem3.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1534 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Vagas-imagem3-300x168.png\" alt=\"Vagas imagem3\" width=\"405\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Vagas-imagem3-300x168.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Vagas-imagem3.png 638w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Essa vaga \u00e9 composta por diferentes <em>ondas<\/em> de ideias: a primeira, frisando a falta de \u201cbons pol\u00edticos\u201d em Portugal, que \u201cos pol\u00edticos mentem\u201d e que, ao contr\u00e1rio, t\u00eam que falar verdade ao povo portugu\u00eas porque o povo \u201caceita sacrif\u00edcios\u201d se lhe falarem verdade; e a segunda avisando que negar a necessidade da austeridade vai obrigar a uma interven\u00e7\u00e3o externa que por\u00e1 <em>a casa na ordem<\/em>, mas que essa interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, por isso, m\u00e1 por natureza (\u201cou fazemos n\u00f3s, ou o faz o FMI e com mais dureza\u201d, o FMI vem a\u00ed porque \u00e9 preciso fazer austeridade, \u201cnem pensar em sair do euro\u201d, a orienta\u00e7\u00e3o da Alemanha e do FMI n\u00e3o tem de ser m\u00e1, \u201cdevia-se pedir ajuda\u201d). \u00c9 com este esp\u00edrito que se entra no ano da interven\u00e7\u00e3o da <em>troika. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a04. <\/em><strong>A defesa da entrada da <em>troika<\/em> (Janeiro a Junho de 2011)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>As li\u00e7\u00f5es da crise vivida em 2010 prolongam-se por 2011. Nos seus artigos perpassa a ideia de que a crise econ\u00f3mica nacional tem muito mais de \u201ccomportamental\u201d do que \u201cestrutural\u201d. Mais do que poderiam ser as consequ\u00eancias das altera\u00e7\u00f5es ocorridas desde 1989 com a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 que redundou no Tratado de Maastricht; na adop\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria e cambial europeia ancorada na estabilidade dos pre\u00e7os; a abertura comunit\u00e1ria ao leste europeu, a ades\u00e3o de Portugal ao embri\u00e3o da moeda \u00fanica, o desmantelamento alfandeg\u00e1rio a pa\u00edses concorrentes de Portugal (China, \u00cdndia, Paquist\u00e3o), a ades\u00e3o do escudo \u00e0 moeda \u00fanica com uma taxa de c\u00e2mbio valorizada, culminando com a ratifica\u00e7\u00e3o no Parlamento do Tratado Or\u00e7amental, mais do que isso, a maioria dos jornalistas do painel acham que os portugueses n\u00e3o souberam aproveitar os aspectos positivos de uma moeda forte \u2013 estabilidade de taxas de juro e baixa infla\u00e7\u00e3o \u2013 para se apetrechar para o futuro. Preferiram o consumo ao investimento, o lazer ao esfor\u00e7o, o cr\u00e9dito, a fantasia ao gasto criterioso das verbas p\u00fablicas. Esbanjaram, aumentando a d\u00edvida, sem criar condi\u00e7\u00f5es do seu pagamento.<\/p>\n<p>Essa leitura da \u201cculpa\u201d perdura ao longo de 2011. Curiosamente, como se pode ver no gr\u00e1fico a abrir este cap\u00edtulo, a import\u00e2ncia da \u201cCausa comportamental\u201d decai quando surgem dificuldades na aplica\u00e7\u00e3o do Memorando, como seja a situa\u00e7\u00e3o vivida em Setembro de 2012 e ao longo de 2013. \u00c0 medida que o tempo passa e as metas do Memorando v\u00e3o falhando, as causas inelut\u00e1veis \u2013 e \u201cestruturais\u201d \u2013 ganham terreno e relativiza-se uma terapia econ\u00f3mica assente na correc\u00e7\u00e3o de maus comportamentos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/vagas-imagem-crise.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1535 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/vagas-imagem-crise-300x148.png\" alt=\"vagas imagem crise\" width=\"458\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/vagas-imagem-crise-300x148.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/vagas-imagem-crise.png 653w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 entrada da troika em Portugal, a maioria do painel de jornalistas manteve nos primeiros meses de 2011 a sua desconfian\u00e7a. Fosse por quest\u00f5es financeiras \u2013 o custo seria bem mais elevado do que o financiamento em d\u00edvida \u2013 fosse por uma quest\u00e3o de soberania nacional ou mesmo de auto-estima nacional. As palavras usadas s\u00e3o fortes como \u00e9 poss\u00edvel ler na caixa em baixo. Mas a partir de certa altura, as opini\u00f5es dos jornalistas assumiram progressivamente uma quase unanimidade de apoio de uma interven\u00e7\u00e3o externa. Esta altera\u00e7\u00e3o coincide com o momento em que as ag\u00eancias de <em>rating <\/em>penalizaram os bancos nacionais e em que os seus banqueiros mudaram de opini\u00e3o, em conson\u00e2ncia com fortes press\u00f5es externas, passando a defender que Portugal deveria perdia \u201cajuda externa\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-necessidade-da-troika.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1536 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-necessidade-da-troika-300x134.png\" alt=\"imagem necessidade da troika\" width=\"401\" height=\"179\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-necessidade-da-troika-300x134.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-necessidade-da-troika.png 672w\" sizes=\"auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: Do receio da interven\u00e7\u00e3o externa ao abra\u00e7o \u00e0 <em>troika<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Primeiro, era o receio. <\/strong>\u201cAs experi\u00eancias grega e irlandesa mostraram que as interven\u00e7\u00f5es criam novos e mais graves problemas, amea\u00e7ando a pr\u00f3pria vida da moeda \u00fanica. Mas est\u00e1 nas m\u00e3os do governo portugu\u00eas evitar o pior\u201d (HG, 10\/1\/2011). \u201cAs probabilidades de Portugal n\u00e3o ser intervencionado pelo FMI s\u00e3o as de atirar uma moeda ao ar e a moeda ficar em p\u00e9. \u00c9 uma probabilidade pequena, min\u00fascula e que j\u00e1 n\u00e3o depende essencialmente de Portugal &#8211; mas vale a pena lutar por ela. N\u00e3o apenas por dignidade.(&#8230;) Por soberania\u201d (PSG, 12\/1\/2011). \u201cH\u00e1 vias mais baratas e politicamente menos perigosas para a ajudar os pa\u00edses em dificuldades financeiras\u201d (HG,13\/1\/2011). \u201cO BCE percebeu (e os l\u00edderes europeus?) que a estrat\u00e9gia de criar uma ala de infecto-contagiosos na Zona Euro (j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o Irlanda e Gr\u00e9cia) n\u00e3o funciona\u201d (CL, 13\/1\/2011). \u201cMas qual \u00e9 a alternativa? O FMI? N\u00e3o: o recurso ao fundo europeu \u00e9 muito mais caro do que se supunha. (&#8230;)E corremos o risco de entrar numa espiral negativa e o risco de execu\u00e7\u00e3o or\u00e7amental passar da despesa para a receita: \u00e9 o paradoxo dos processos de<\/em> <em>consolida\u00e7\u00e3o brutais, como o que enfrentamos\u201d (PSG, 14\/1\/2011). \u201cEntendamo-nos. (&#8230;) Querer que o FMI venha para arredar S\u00f3crates do poder pode ser interessante para o partido A ou B, mas n\u00e3o coloca os interesses nacionais acima dos partid\u00e1rios\u201d (NS, 15\/1\/2011). \u201cO modelo de socorro \u00e0 Gr\u00e9cia e \u00e0 Irlanda fracassou, pois nem conteve o risco sist\u00e9mico do euro, nem aliviou nesses pa\u00edses os custos de financiamento\u201d (PSG, 17\/1\/2011). <strong>Mas de repente, a vaga de opini\u00f5es muda. <\/strong>\u201c\u00c9 irrelevante saber de onde vem a ajuda\u201d (CL, 17\/2\/2011). \u201cO debate histri\u00f3nico FMI entra\/n\u00e3o entra \u00e9 um exerc\u00edcio de anti-ret\u00f3rica pol\u00edtica de fuga \u00e0 realidade. Portugal j\u00e1 est\u00e1 a ser ajudado. O BCE j\u00e1 det\u00e9m 15% da nossa d\u00edvida p\u00fablica (quin-ze-por-cen-to!) e as suas equipas andam nos minist\u00e9rios de Lisboa (&#8230;) Troque tr\u00eas letras: n\u00e3o \u00e9 FMI, \u00e9 BCE. O resto \u00e9 conversa fiada. Digo bem: fiada, muito fiada, impossivelmente fiada\u201d (PSG,18\/2\/2011). \u201c\u00c9 preciso desdramatizar um eventual pedido de apoio. Essa ajuda ser\u00e1 muito \u00fatil e importante para o pa\u00eds fazer as correc\u00e7\u00f5es que tem de fazer, na sua estrutura institucional\u201d (HG, 21\/2\/2011). \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que os Estados renunciem a parte da sua soberania\u201d (PSG, 22\/2\/2011). \u201cAgora, dizem-nos que n\u00e3o h\u00e1 volta a dar. No m\u00e1ximo em Abril, teremos de pedir ajuda ao fundo de resgate e ao FMI. Para qu\u00ea, eis a quest\u00e3o. Olha-se para a Gr\u00e9cia e Irlanda e v\u00ea-se que est\u00e3o a pagar taxas na casa dos 11% e 9%. O desemprego sobe em flecha nos dois pa\u00edses. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 a economia, est\u00fapido. \u00c9 a economia dos e para est\u00fapidos\u201d (NS, 26\/2\/2011). \u201cDesde 2008 que n\u00e3o se governa em Portugal. Em 2011 somos governados de fora\u201d (PSG, 1\/3\/2011). \u201cO argumento de que os bancos alem\u00e3es t\u00eam muito a perder com a queda de Portugal \u00e9 infantil\u201d (PSG, 2\/3\/2011). \u201cO Governo n\u00e3o deveria querer elei\u00e7\u00f5es, devia ter peito para assumir o pedido de ajuda externa que, de uma forma ou de outra, ser feito\u201d (PSG, 22\/3\/2011). \u201cRicardo Salgado, Carlos Santos Ferreira e Fernando Ulrich juravam, ainda h\u00e1 poucas semanas, que o Governo deveria fazer tudo o que pudesse para evitar um pedido de ajuda externa e alertavam para os riscos dessa decis\u00e3o. Esta semana, o mundo mudou. (&#8230;) Qual \u00e9 a vantagem de prolongar esta agonia e n\u00e3o pedir ajuda, seja ela qual for? Nenhuma, pelo contr\u00e1rio\u201d (AC, 6\/4\/2011). \u201cOs banqueiros acordaram. Depois de meses a acomodar o comportamento suicid\u00e1rio do Governo desistiram de comprar d\u00edvida p\u00fablica\u201d (CL, 6\/4\/2011). \u201cComo algu\u00e9m dizia, os portugueses s\u00e3o um povo que n\u00e3o se governa nem se deixa governar. Vamos ter de nos deixar governar, \u00e0 for\u00e7a. E isso tem o seu lado positivo<strong>.<\/strong>\u201d (AC, 7\/4\/2011). \u201cTodo este choque tem de ser para um bem. Para que Portugal deixe de ser Estado de s\u00edtio e passe a ser um s\u00edtio com Estado. Esta \u00e9 uma oportunidade \u00fanica para mudar de era (&#8230;) Isso \u00e9 criar, enfim, um Estado moderno\u201d (PSG, 8\/4\/2011). \u201cA ideia de que o modelo do FMI n\u00e3o serve \u00e9 um equivoco\u201d (CL,15\/4\/2011). \u201c\u00c9 uma trag\u00e9dia termos de recorrer a ajuda externa mas s\u00f3 para o nosso ego\u201d (JVP, 30\/4\/2011). \u201cCom a permanente assist\u00eancia t\u00e9cnica do FMI e de Bruxelas, que por c\u00e1 passar\u00e3o os pr\u00f3ximos anos a fiscalizar todos os actos e omiss\u00f5es do Governo, os portugueses poder\u00e3o olhar para o futuro com esperan\u00e7a\u201d (AC, 4\/5\/2011). \u201cTr\u00eas homens que n\u00e3o conheciam a economia portuguesa vieram a Lisboa e em tr\u00eas semanas fizeram o melhor programa de Governo que o pa\u00eds conheceu em d\u00e9cadas. (&#8230;) Ontem algu\u00e9m me dizia que quem faz opini\u00e3o devia sugerir a contrata\u00e7\u00e3o da Troika para gerir o pa\u00eds, em regime de outsourcing, durante o tempo que durar o programa de ajustamento\u201d (CL, 5\/5\/2011).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rapidamente, a <strong>ajuda externa<\/strong> torna-se sin\u00f3nimo de uma <strong>mudan\u00e7a estrutural<\/strong> em Portugal que ser\u00e1 feita a grande velocidade e com efeitos positivos para o conjunto do pa\u00eds. A maioria dos jornalistas olha para o Memorando de Entendimento como um pesado caderno de encargos, mas com o fim \u00e0 vista: a melhoria da vida dos portugueses numa economia mais competitiva. Em poucos meses, o diabo surge quase como o advento de um novo <strong>manifesto revolucion\u00e1rio<\/strong>. \u201cO plano (&#8230;) tem de ser aquilo que nos separa do regresso ao subdesenvolvimento\u201d (HG, 3\/5\/2011). A troika trouxe \u201cum plano estrat\u00e9gico para tornar a economia mais competitiva e justa. (&#8230;) \u00c9 uma excelente noticia. N\u00e3o vai ser de arromba, vai ser um rombo. Que seja para mudar de vida. Antes de vida que de moeda, de soberania, de pa\u00eds. Feliz ano novo\u201d (PSG, 4\/5\/2011). \u201cTemos uma oportunidade (&#8230;) para reescrevermos a nossa Hist\u00f3ria\u201d (AC, 5\/5\/2011). O programa para Portugal \u00e9 \u201cclaro, transparente, quantificando metas, definindo o que se poupa ou o que se obt\u00e9m com cada medida e fiscalizando trimestralmente esse cumprimento\u201d (NS,7\/5\/2011). \u201cReformas no mercado de trabalho, na concorr\u00eancia, na energia, no arrendamento, na justi\u00e7a, etc. Estas medidas visam mudar a nossa economia de modo a que, depois da esfrega dos pr\u00f3ximos dois anos, ela possa come\u00e7ar a crescer\u201d (PSG, 12\/5\/2011). \u201cQue sirva para repor a economia portuguesa nos eixos, como o rem\u00e9dio que se toma para curar uma doen\u00e7a: amargo mas necess\u00e1rio\u201d (AC, 13\/5\/2011). \u201cUma \u00faltima oportunidade, que temos de agarrar sem submiss\u00e3o mas com humildade\u201d (PSG, 16\/5\/2011). \u201cTr\u00eas anos para colocar a economia portuguesa a crescer e pagar as d\u00edvidas ao estrangeiro. E n\u00e3o haver\u00e1 tempo para descansar\u201d (AC, 6\/6\/2011).<\/p>\n<p>Os jornalistas <strong>alinham politicamente com a coliga\u00e7\u00e3o de direita<\/strong>, como sendo a cara da mudan\u00e7a que se imp\u00f5e ao pa\u00eds. \u201cPor isso, da minha parte, assumo aqui um compromisso. J\u00e1 escolhi em quem vou votar no pr\u00f3ximo dia 5 de Junho: na troika e no plano de reforma que nos permitir\u00e1 ter um Estado muito diferente, outro Estado, para melhor, do que aquele que temos, mais justo, mais competitivo e criador de riqueza\u201d (AC, 5\/5\/2011). \u201cPassos Coelho tem de fazer um Governo bom e depressa. Para cumprir o plano da troika j\u00e1\u201d (PSG, 6\/6\/2011). \u201cPSD e PP t\u00eam todas as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para realizar os trabalhos marcados pela troika. Al\u00e9m da maioria no parlamento, acreditam naquela terapia e contam, se assim o escolherem, com quadros t\u00e9cnicos com qualidades pol\u00edticas e esp\u00edrito de servi\u00e7o p\u00fablico para executarem as medidas\u201d (HG, 9\/6\/2011). \u201cO Governo nasceu. N\u00e3o \u00e9 um cisne branco, nem um patinho feio, \u00e9 um Governo (&#8230;) O Cabo mais dif\u00edcil de passar da Hist\u00f3ria de Portugal tinha dois nomes: Cabo das Tormentas e Cabo da Boa Esperan\u00e7a. (&#8230;) O pa\u00eds n\u00e3o torce pelo Governo, torce por si mesmo\u201d (PSG, 21\/6\/2011). \u201cO que se passou nestes \u00faltimos dois dias demonstra que temos equipa, temos governo e temos Presidente da Rep\u00fablica. (&#8230;) Discursos, declara\u00e7\u00f5es e procedimentos come\u00e7am a revelar que existe uma da reorienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica neste Governo liderado por Pedro Passos Coelho. N\u00e3o h\u00e1 uns a defenderem um caminho e outro o contr\u00e1rio. E o l\u00edder n\u00e3o s\u00f3 diz, como j\u00e1 mostrou que n\u00e3o tem medo de errar\u201d (HG, 22\/6\/2011). \u201cMudar de vida? A vida j\u00e1 mudou de Governo. Agora n\u00f3s. Voc\u00ea. Eu.\u201d (PSG, 24\/6\/2011).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5. A aplica\u00e7\u00e3o do \u201cprograma\u201d da troika <\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cUm dia, o coelho pediu ao mocho para o ajudar a escapar \u00e0 raposa. Responde o mocho: \u201cQuando vires a raposa, transforma-te num c\u00e1gado\u201d. O coelho afastou-se todo contente. Eis sen\u00e3o quando de repente se lembra: \u201cMas como \u00e9 que eu me transformo num c\u00e1gado?!\u201d Voltou atr\u00e1s e fez, aflito, a pergunta ao mocho. Resposta do s\u00e1bio: \u201cEu s\u00f3 dou a estrat\u00e9gia. Tu \u00e9 que tens de definir a t\u00e1tica.\u201d (NS, 7\/5\/2011<strong>) <\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Durante o per\u00edodo de interven\u00e7\u00e3o externo da troika em Portugal, entre Maio de 2011 e o 1\u00ba semestre de 2014, a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento dos jornalistas sobre a efic\u00e1cia do Memorando de Entendimento esteve muito ligada \u00e0 forma como se aplicou a austeridade. Na sua maioria, o painel esperava uma interven\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, no sentido de uma reestrutura\u00e7\u00e3o profunda do Estado e da economia. Mas \u00e0 medida que as decis\u00f5es mais duras iam sendo adiadas e substitu\u00eddas por medidas \u201cf\u00e1ceis\u201d \u2013 como aumento de impostos \u2013 o painel inflectiu a sua aprecia\u00e7\u00e3o e foi se decepcionando. Esse adiamento das grandes decis\u00f5es teve \u2013 no seu entendimento &#8211; o efeito de prolongar a recess\u00e3o, sem criar alternativas econ\u00f3micas que compensassem a quebra da economia. Os jornalistas assumiram quase o papel de paladinos da defesa da pureza inicial do Memorando, tentaram influenciar o Governo no sentido da sua plena aplica\u00e7\u00e3o, lutando contra uma a atitude \u201cpol\u00edtica\u201d do Governo, de estar consecutivamente a <em>empurrar com a barriga <\/em>os problemas reais e de nada fazer para mudar as estruturas. Para os jornalistas, a deficiente aplica\u00e7\u00e3o do Memorando tornou urgente, todos os dias, a aplica\u00e7\u00e3o de medidas fundas de austeridade e a sua aus\u00eancia conduziu \u00e0 leitura de que, cada vez \u2013 e at\u00e9 ao fim -, o Memorando foi ineficaz. Uma decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-austeridade.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1538 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-austeridade-300x175.png\" alt=\"imagem austeridade\" width=\"375\" height=\"219\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-austeridade-300x175.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-austeridade.png 710w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-memorando.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1537 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-memorando-300x158.png\" alt=\"imagem memorando\" width=\"374\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-memorando-300x158.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-memorando.png 710w\" sizes=\"auto, (max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Olhando para os gr\u00e1ficos, \u00e9 poss\u00edvel definir v\u00e1rios per\u00edodos ao longo dos tr\u00eas anos de aplica\u00e7\u00e3o do Memorando de Entendimento:<\/p>\n<p>1) <strong>de Maio a Dezembro de 2011<\/strong>, com um pico \u00f3bvio em Junho de 2011 (no m\u00eas seguinte \u00e0 da assinatura do Memorando e da tomada de posse do Governo da coliga\u00e7\u00e3o de direita chefiada por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas), os jornalistas s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 interven\u00e7\u00e3o, mobilizados pelo \u201cestado de necessidade\u201d, da inevitabilidade de uma pol\u00edtica de austeridade e mesmo da sua efic\u00e1cia, porque integrada num plano de altera\u00e7\u00e3o estrutural da economia e do Estado. V\u00e3o aceitando medidas extraordin\u00e1rias \u2013 aumento de impostos e expedientes or\u00e7amentais, ao arrepio do mandato eleitoral do Governo e do Memorando \u2013 \u00e0 medida que v\u00e3o se tornando conhecidos d\u00edvidas or\u00e7amentais n\u00e3o contabilizadas pelo Governo socialista ou camufladas pelo Governo Aut\u00f3nomo da Madeira, que atingiram 3,4 mil milh\u00f5es de euros. A avalia\u00e7\u00e3o do Memorando \u00e9 a de, por essa raz\u00e3o, que estava a ser mal aplicado e a sua efic\u00e1cia negativa, embora o Governo mantenha o \u201cestado de gra\u00e7a\u201d. Os mecanismos desenhados para o crescimento n\u00e3o s\u00e3o aprovados ou s\u00e3o afastados porque ineficazes ou demasiado pesadas or\u00e7amentalmente (descida da TSU)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: O primeiro choque com a realidade<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cV\u00edtor Gaspar confirmou as m\u00e1s not\u00edcias, um imposto extraordin\u00e1rio a incidir sobre o subs\u00eddio de Natal, e adiou o an\u00fancio das boas, as medidas concretas de corte de despesa e de emagrecimento do Estado, que libertem a economia, as empresas e os cidad\u00e3os\u201d (AC, 15\/7\/2011). \u201cPedro Passos Coelho n\u00e3o foi eleito para ser popular. E Portugal n\u00e3o tem tempo\u201d (PSG, 15\/7\/2011). \u201cO nosso futuro joga-se at\u00e9 Mar\u00e7o do pr\u00f3ximo ano. Na Primavera de 2012 ou estaremos todos a suspirar da al\u00edvio, porque conseguimos ultrapassar os mais importantes obst\u00e1culos que est\u00e3o nas nossas m\u00e3os vencer, ou estaremos condenados a um dram\u00e1tico empobrecimento\u201d (HG, 27\/7\/2011). \u201cO estado de gra\u00e7a acabou-se, o benef\u00edcio da d\u00favida n\u00e3o. Ainda\u201d (AC, 5\/9\/2011). \u201cPara cortar despesa do Estado \u00e9 preciso ir aos sal\u00e1rios Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica ou \u00e0s pens\u00f5es, \u00e9 preciso ir \u00e0s empresas do Estado, \u00e9 preciso ir \u00e0 Sa\u00fade e \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso come\u00e7ar a reduzir a d\u00edvida para baixar a \u00e2ncora dos juros\u201d (PSG, 6\/9\/2011). \u201cO Governo tem de rescindir contratos com pelo menos 70 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos em 2012\u201d (AC, 14\/9\/2011). \u201cA grande despesa est\u00e1 no Estado Social que s\u00f3 se salvar\u00e1 se finalmente se tocar no que nunca se tocou\u201d (HG, 16\/9\/2011). \u201cDif\u00edcil \u00e9 dar um prop\u00f3sito \u00e0s medidas de austeridade (&#8230;) Ter estrat\u00e9gia. Ir \u00e0 guerra. Foi para isso que elegemos Passos Coelho como primeiro-ministro\u201d (PSG, 27\/10\/2011). \u201cChegou a hora de atacar o que de facto tem danificado a economia portuguesa. O que de facto a tem impedido de crescer (HG, 17\/11\/2011).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2) <strong>de Dezembro de 2011 a Junho de 2012<\/strong>, as opini\u00f5es dividem-se sobre a inevitabilidade da austeridade e sobre a sua efic\u00e1cia, ou mesmo sobre a efic\u00e1cia do Memorando de Entendimento. Mas na m\u00e9dia do painel, h\u00e1 como que um reagrupar de posi\u00e7\u00f5es em torno da inevitabilidade da austeridade, pressionando por mais ousadia por parte do Governo. \u00c9 vis\u00edvel uma invers\u00e3o de sinal quanto \u00e0 efic\u00e1cia do Memorando. Encontram-se explica\u00e7\u00f5es virtuosas para aquela que foi a grande surpresa para os autores do Memorando &#8211; a subida do desemprego. A aposta no sector dos bens transaccion\u00e1veis passa por \u201cp\u00f4r um fim aos apoios e incentivos aos sectores protegidos\u201d e essa estrat\u00e9gia \u201cs\u00f3 pode ter uma consequ\u00eancia no curto prazo: o desemprego. Porque muitos dos sectores e das empresas que foram sustentadas artificialmente n\u00e3o regressar\u00e3o, pelo menos com o mesmo n\u00edvel de emprego\u201d (AC, 16\/5\/2012), nomeadamente naqueles \u201csectores que mais beneficiam da despesa do Estado\u201d (CL, 25\/5\/2012). Por outro lado, essa press\u00e3o sobre o mercado de trabalho tem outras vantagens como a descida salarial para evitar a subida do desemprego (HG, 16\/4\/2012). \u201cUma das coisas boas que est\u00e3o a acontecer \u00e9 a mudan\u00e7a r\u00e1pida de h\u00e1bitos dos portugueses. As marmitas, a redu\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego, as marcas brancas n\u00e3o s\u00e3o apenas op\u00e7\u00f5es de pobreza, s\u00e3o novos modos de vida. Silva Lopes sempre o disse: os portugueses s\u00e3o muito mais flex\u00edveis do que se imagina\u201d (PSG, 24\/2\/2012). Mas mant\u00e9m-se uma cr\u00edtica grossa \u00e0 inefic\u00e1cia \u00e0 luta dos \u201cinteresses\u201d no Estado: \u201cFalta, ao Governo, vencer as resist\u00eancias \u00e0 mudan\u00e7a de grupos que se habituaram a ganhar dinheiro sem criar valor e \u00e0 mesa do OE\u201d (HG, 28\/3\/2012). \u201cCada poupan\u00e7a na Sa\u00fade \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. Mas quase cada euro l\u00e1 investido \u00e9 tamb\u00e9m um neg\u00f3cio para algu\u00e9m. E tem havido neg\u00f3cio a mais na Sa\u00fade. (&#8230;) O <em>Sa\u00fade gratuita para todos<\/em> \u00e9 a frase que os interesses instalados mais gostam de dizer &#8211; e de ouvir dizer\u201d (PSG, 12\/1\/2012). \u201cPortugal ainda pode perder a guerra da prosperidade por capitula\u00e7\u00e3o do Governo aos interesses\u201d (HG, 28\/3\/2013). E engrossa a ideia de que o Governo est\u00e1 a perder o <em>\u00e9lan<\/em> e a vis\u00e3o estrat\u00e9gia ou a cair em experimentalismo insensatos. A r\u00e1pida mudan\u00e7a tarda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: Uma austeridade sem vis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Austeridade, sim, mas n\u00e3o isto. <\/strong>\u201cA \u2018troika\u2019 \u2013 e particularmente o FMI &#8211; j\u00e1 percebeu que tem de for\u00e7ar a adop\u00e7\u00e3o de reformas estruturais, sob pena de a austeridade n\u00e3o servir para mais nada sen\u00e3o para acentuar a recess\u00e3o e o desemprego\u201d (AC, 22\/12\/2012). \u201cA austeridade, por si s\u00f3, n\u00e3o vai trazer crescimento econ\u00f3mico. As reformas estruturais sim, mas a prazo\u201d (JVP, 2\/2\/2012). \u201cO ajustamento, como est\u00e1 desenhado, dita um mergulho recessivo na economia\u201d (HG, 30\/1\/2012). \u201cSe a estrutura da economia n\u00e3o mudar, nunca teremos mais prosperidade. Seremos apenas pobres\u201d (HG, 12\/3\/2012). <strong>\u201c<\/strong>O problema do pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 o que o governo est\u00e1 a fazer. O problema est\u00e1 no que n\u00e3o est\u00e1 fazer\u201d (HG, 1\/5\/2012). \u201cCham\u00e1mo-los vai para um ano. Eles viriam. Chegaram cheios de cagan\u00e7a: traziam um plano. O plano. O plano para p\u00f4r Portugal na ordem. (&#8230;) o plano para o crescimento n\u00e3o existe, \u00e9 uma simula\u00e7\u00e3o, uma projec\u00e7\u00e3o das compreens\u00edveis frustra\u00e7\u00f5es que a austeridade provoca\u201d (PSG, 17\/5\/2012). <strong>E depois surgem as opini\u00f5es de que a austeridade \u00e9 t\u00f3xica e o programa de ajustamento est\u00e1 mesmo a correr muito mal. <\/strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 onirismos nem niilismos, o programa de ajustamento \u00e9 um rol de destrui\u00e7\u00e3o. Destrui\u00e7\u00e3o de emprego, de d\u00edvida, de economia; dizima uma gera\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia, tributa, corta, retira, anula, toca e n\u00e3o foge. H\u00e1 at\u00e9 um sentido no nome, Programa de Ajustamento Econ\u00f3mico e Financeiro, porque o PAEF \u00e9 um PAF!, uma bofetada de luvas encarnadas de sangue\u201d (PSG, 24\/2\/2012). \u201cQue sucesso \u00e9 este que nos traz at\u00e9 este desemprego? E que nos promete ainda mais desemprego?\u201d (HG, 27\/2\/2012). \u201cA quest\u00e3o \u00e9 que este modelo (exporta\u00e7\u00f5es assentes em baixos sal\u00e1rios) exige que continuemos a ser os mais pobres da Europa\u201d (NS, 3\/3\/3012). \u201cDas quase 300 mil empresas portuguesas, apenas 18.000 s\u00e3o exportadoras. Dessas, uma centena exporta 50% do total. H\u00e1 depois 3000 que vendem 45% e 14.000 que representam apenas 4 a 5% do total. Por isso, apoiar as empresas exportadoras \u00e9 muito importante. Mas ignorar as centenas de milhares de PME que est\u00e3o viradas para o mercado interno \u00e9 a receita certa para o desastre\u201d (NS, 21\/4\/2012). \u201cE a realidade mostra-nos cada vez mais que a austeridade est\u00e1 a ser mais para uns do que para outros e, exactamente por isso, est\u00e1 a tra\u00e7ar o caminho para o fracasso e para a desuni\u00e3o entre os portugueses\u201d (HG, 26\/4\/2012). <strong>Surgem opini\u00f5es de que o prolongamento das medidas recessivas e experimentalistas levar\u00e3o ao empobrecimento do pa\u00eds e de um povo. <\/strong>\u201cT\u00edtulo: Isto n\u00e3o est\u00e1 a resultar, dr. Gaspar. (NS, 12\/5\/2012). \u201cNa semana em que a troika est\u00e1 em Portugal para avaliar pela terceira vez o programa de ajustamento, a economia come\u00e7a a dar todos os sinais de que a pol\u00edtica de austeridade n\u00e3o vai conduzir aos resultados esperados, a n\u00e3o ser que seja rapidamente corrigida (\u2026) E corre o s\u00e9rio risco de entrar numa espiral recessiva que a arrasar\u00e1 por muitos e longos anos\u201d (NS, 18\/2\/2012). \u201cPortugal est\u00e1 a ser alvo de pol\u00edticas nunca experimentadas\u201d (HG, 1\/3\/2012). \u201cIdeologia pura e dura, a par de mentiras t\u00e9cnicas \u00e9 o que acontece, por outro lado, com a aprova\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es ao C\u00f3digo de Trabalho e o fim de dois feriados. (\u2026) O objectivo n\u00e3o \u00e9 o aumento da produtividade, mas o embaratecimento do factor trabalho. Ponto final\u201d (NS, 31\/3\/2012).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3) <strong>de Julho a Novembro de 2012<\/strong>, h\u00e1 uma invers\u00e3o de todos os sinais. H\u00e1 um julgamento cr\u00edtico sobre o papel da austeridade, como algo j\u00e1 a evitar, por ser ineficaz tal e qual como est\u00e1 a ser aplicada. E passa a ideia de que o Memorando est\u00e1 a ser um verdadeiro falhan\u00e7o. \u00c9 o per\u00edodo marcado, primeiro, pelo aprofundamento da retrac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que conduziu a uma espiral recessiva, delapidando as metas or\u00e7amentais e pondo em causa a pr\u00f3pria atitude governamental de \u201cbom aluno\u201d da troika. A julgar pelos artigos dos jornalistas, o Governo ainda inicia dilig\u00eancias junto dos banqueiros para baixar o custo do cr\u00e9dito que volte a financiar as empresas. Ao que parece, debalde. Em segundo lugar, o Tribunal Constitucional chumba, a 5\/7\/2012, a inten\u00e7\u00e3o do Governo de manter os cortes de subs\u00eddios de Natal e de f\u00e9rias na Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica de 2011. <strong>Os jornalistas criticam a vis\u00e3o curta do Governo<\/strong> de fazer cortes, mantendo as estruturas. \u201cExigem-se reformas, no Estado, que n\u00e3o est\u00e3o feitas e, pelos vistos, nem sequer est\u00e3o a caminho. A quebrar os interesses protegidos, as classes protegidas, a democratizar a nossa economia\u201d (AC, 9\/7\/2012). \u201cTodo o facilitismo foi destru\u00eddo pelo Tribunal Constitucional que salvou o Pa\u00eds, ao impor uma estrat\u00e9gia mais saud\u00e1vel de redu\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice p\u00fablico, e que pode ter salvo o Governo de si pr\u00f3prio\u201d (HG, 10\/7\/2012). \u201cA decis\u00e3o legal (do TC) de n\u00e3o permitir cortes duradouros na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica devia ser acompanhada de uma altera\u00e7\u00e3o legislativa (&#8230;) de permitir despedimentos na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. (&#8230;)Isso, sim, seria coragem pol\u00edtica\u201d (PSG, 12\/7\/2012). \u201cUm ano depois, um milh\u00e3o de desempregados, milhares de fal\u00eancias, colapso nos servi\u00e7os p\u00fablicos, quebra brutal no consumo e no investimento e \u00eaxodo sem precedentes de jovens talentos portugueses, a receita infal\u00edvel para nos salvar da crise est\u00e1 em vias de ser bastante alterada. Se isto n\u00e3o \u00e9 falhan\u00e7o, n\u00e3o sei o que \u00e9 falhan\u00e7o\u201d (NS, 14\/7\/2012). \u201cA economia est\u00e1 a ajustar-se do lado dos trabalhadores. N\u00e3o chega. \u00c9 preciso reduzir o tamanho do Estado e pagar d\u00edvidas para reduzir impostos\u201d (PSG, 1\/8\/2012). \u201cPedro Passos Coelho ganhou as elei\u00e7\u00f5es com um programa que rejeitava aumento de impostos, e, depois disso, j\u00e1 retirou metade do subs\u00eddio de Natal de 2011 e apresentou um or\u00e7amento de 2012 que agravou todos os impostos\u201d (AC, 6\/9\/2012).<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o Governo v\u00ea-se esmagadoramente questionado nas ruas. O an\u00fancio surgido <em>do nada<\/em> de cortar 7% dos sal\u00e1rios atrav\u00e9s da subida dos descontos sociais dos trabalhadores e remetendo-os directamente para as empresas d\u00e1 azo \u00e0s maiores manifesta\u00e7\u00f5es, , organizadas por uma estrutural informal designa <em>Que se lixe a Troika<\/em>, em que jornalistas do painel participam. O Governo recua. \u00c9 o in\u00edcio da descida da popularidade dos partidos da coliga\u00e7\u00e3o de direita e de um processo irrevers\u00edvel de contesta\u00e7\u00e3o ao Memorando, incluindo no interior da pr\u00f3pria coliga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-sondagens.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1539 aligncenter\" src=\"http:\/\/jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-sondagens-300x122.png\" alt=\"imagem sondagens\" width=\"401\" height=\"163\" srcset=\"https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-sondagens-300x122.png 300w, https:\/\/www.jralmeida.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/imagem-sondagens.png 710w\" sizes=\"auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pela primeira vez, a popularidade da maioria fica claramente abaixo dos 40%, nunca mais recuperando. Os jornalistas fazem eco desse <strong>mal-estar<\/strong>. \u201cChegar\u00e1 a altura em que deixaremos de perguntar de quem \u00e9 a culpa e quereremos ouvir apenas um pedido de desculpa. (\u2026) O an\u00fancio de medidas de austeridade feito pelo primeiro-ministro ao entardecer de sexta-feira, antes de um jogo de futebol, \u00e9 uma trag\u00e9dia\u201d (PSG, 10\/9\/2012). \u201cGoverno perdeu o Pa\u00eds, o Pa\u00eds pode perder a troika, Portugal regressou a um p\u00e2ntano impens\u00e1vel ainda h\u00e1 pouco mais de uma semana, regressaram os piores pesadelos, e \u00e9 dif\u00edcil perceber como \u00e9 que se vai sair daqui, deste beco sem sa\u00edda\u201d (AC, 17\/9\/2012). \u201cA troika devia olhar olhos nos olhos dos portugueses e responder a tr\u00eas perguntas: acredita mesmo que, com mais austeridade generalizada, a economia vai come\u00e7ar a crescer no segundo trimestre do pr\u00f3ximo ano? Acredita mesmo que Portugal vai conseguir a redu\u00e7\u00e3o brutal do d\u00e9fice em cada um dos pr\u00f3ximos dois anos depois de ter falhado o deste ano? Acredita mesmo que Portugal conseguir\u00e1 pagar a sua d\u00edvida p\u00fablica j\u00e1 superior aos fat\u00eddicos 120% do PIB? S\u00e3o perguntas simples, mas entristecidas. As contas n\u00e3o quadram. N\u00e3o batem. Assim n\u00e3o vamos l\u00e1\u201d (PSG, 25\/9\/2012). \u201cQuando a cegueira ideol\u00f3gica se sobrep\u00f5e ao bom senso, a realidade importa-se de mostrar que \u00e9 o bom senso que tem raz\u00e3o\u201d (NS, 29\/9\/2012).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica que \u00e9 feita pelos jornalistas n\u00e3o \u00e9 tanto pela op\u00e7\u00e3o do Governo de cortar em 7% os sal\u00e1rios do sector privado. Veja-se a Caixa \u201cAs contradi\u00e7\u00f5es dos jornalistas\u201d e torna-se evidente que a maioria dos jornalistas, pelo menos desde 2010, sempre defendeu a necessidade de uma redu\u00e7\u00e3o dos \u201ccustos do trabalho\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: As contradi\u00e7\u00f5es dos jornalistas: Estiveram os jornalistas a favor ou contra da <em>desvaloriza\u00e7\u00e3o interna<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>A 7\/9\/2012, o primeiro-ministro anuncia a inten\u00e7\u00e3o de cortar as contribui\u00e7\u00f5es sociais do patronato de 23,75 para 18% e aumentar a Taxa Social \u00danica (TSU) dos trabalhadores de 11 para 18%. A medida foi explicada pela necessidade de reduzir os custos do trabalho, com vista a melhoria da competitividade das empresas nacionais. Os jornalistas do painel criticaram a medida. <\/strong>\u201cO trade-off entre o aumento da TSU dos trabalhadores e a redu\u00e7\u00e3o da TSU das empresas \u00e9 apenas um embuste pol\u00edtico, que nem sequer uma op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica justifica\u201d (AC, 10\/9\/2012). \u201cO problema \u00e9 que a medida n\u00e3o est\u00e1 a passar para a opini\u00e3o p\u00fablica. Para ela, o governo est\u00e1 a tirar aos trabalhadores para dar \u00e0s empresas \u00c9 injusto? \u00c9\u201d (CL, 10\/9\/2012). \u201cPassos Coelho, Gaspar e Borges estiveram fechados em salas tempo de mais. Esqueceram-se que c\u00e1 fora h\u00e1 pessoas\u201d (PSG, 12\/9\/2012). \u201cA estrat\u00e9gia \u00e9 a adequada, diz Gaspar. N\u00e3o foi, sen\u00e3o n\u00e3o ser\u00edamos confrontados com mais impostos. (&#8230;) Falhou\u201d (AC, 12\/9\/2012). \u201cEsta medida tem um fito e \u00e9 um fito de pol\u00edtica econ\u00f3mica: trocar os termos entre riqueza gerada pelo trabalho e pelo capital\u201d (PSG, 13\/9\/2012). \u201cO Governo n\u00e3o anunciou apenas o experimentalismo econ\u00f3mico, ensaiou um experimentalismo pol\u00edtico dif\u00edcil de perceber\u201d (AC, 14\/9\/2012). \u201cO caso da TSU pode ser usado para mostrar como os especialistas n\u00e3o devem substituir os pol\u00edticos em decis\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d (HG, 14\/9\/2012). \u201cSomos 10 milh\u00f5es de ratinhos brancos sujeitos a experimenta\u00e7\u00f5es de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o fiscal por via da TSU\u201d (NS, 15\/9\/2012). \u201cNo meio da maior crise econ\u00f3mica dos \u00faltimos 40 anos, onde a perda do rendimento dispon\u00edvel das fam\u00edlias tem sido enorme, Passos Coelho tira do trabalho para dar ao capital com a promessa de que isso ir\u00e1 criar emprego. E f\u00e1-lo com a desculpa de que o Tribunal Constitucional o obrigou\u201d (JVP, 15\/9\/2012). \u201cCom o aumento da TSU para os trabalhadores, e mais impostos para 2013, pass\u00e1mos da possibilidade da austeridade inteligente para a imin\u00eancia da austeridade burra\u201d (PSG, 20\/9\/2012). <strong>Mas o pensamento desde jornalistas nunca foi desfavor\u00e1vel a medidas de efeito semelhante. Desde o in\u00edcio da crise das d\u00edvidas soberanas, em 2010, que a redu\u00e7\u00e3o salarial foi defendida \u2013 de diversas formas. <\/strong>O Governo S\u00f3crates \u201cpodia ter feito outra coisa? Podia. Podia, por exemplo, ter lido a muito estimulante proposta de Ricardo Reis, professor de economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. E essa proposta passa por descer a TSU de 23,75% para 17% e subir o IVA do regime geral de 20% para 25%, com aumentos semelhantes nos regimes especiais do IVA, no IMT e num imposto sobre rendas\u201d (NS, 22\/5\/2010). \u201cSilva Lopes tem uma pequena sugest\u00e3o que pode ser determinante. Utilizar parte da receita do aumento do IVA para baixar os descontos das empresas para a Seguran\u00e7a Social, diminuindo custos do trabalho\u201d (JVP, 9\/10\/2010). \u201cOs custos unit\u00e1rios dos produtos exportados n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 sal\u00e1rios: s\u00e3o juros, factura energ\u00e9tica, impostos, transportes, mat\u00e9rias-primas&#8230;\u201d (PSG, 7\/12\/2010). \u201cJ\u00e1 quanto \u00e0s altera\u00e7\u00f5es das leis laborais, espera-se um embaratecimento do despedimento para as empresas e admite-se flexibiliza\u00e7\u00e3o no contrato de trabalho em aspectos como o banco de horas (&#8230;). S\u00e3o aspectos positivos\u201d (PSG, 15\/12\/2010). \u201cTudo seria mais simples se o despedimento individual fosse, mesmo que marginalmente, flexibilizado. E as indemniza\u00e7\u00f5es reduzidas para todos com a justi\u00e7a a garantir que seriam pagas\u201d (HG, 25\/1\/2011). \u201cBaixamos os sal\u00e1rios ou reduzimos a TSU. Rejeitamos a primeira op\u00e7\u00e3o\u201d (AC, 11\/5\/2011). \u201cSe se quer descer os custos do factor trabalho, talvez seja melhor adoptar as propostas de Lu\u00eds Campos e Cunha e Daniel Bessa: aumentar o hor\u00e1rio semanal de trabalho em duas horas ou duas horas e meia\u201d (NS, 28\/5\/2011). \u201cUma situa\u00e7\u00e3o que, (&#8230;), obriga os respons\u00e1veis governamentais a repensar a legisla\u00e7\u00e3o laboral, flexibilizando-a, para, juntamente com a avalia\u00e7\u00e3o em curso da redu\u00e7\u00e3o da TSU, atrair mais investimento empresarial\u201d (AC, 8\/8\/2011). \u201cTemos de dar corda aos sapatos. Como? (&#8230;)3 &#8211; Baixar a TSU em 10%\u201d (CL, 14\/9\/2011). \u201cClaro que \u00e9 preciso alterar a legisla\u00e7\u00e3o laboral para permitir que se possa reduzir sal\u00e1rios (&#8230;). E a folha \u00e9, frequentemente, a \u00fanica parcela dos custos em que podem mexer\u201d (HG, 18\/11\/2011). \u201cS\u00f3 de me lembrar da quantidade de pessoas com responsabilidade c\u00edvica e pol\u00edtica que se viraram contra esta medida [baixa da TSU] v\u00eam-me \u00e0 boca uma s\u00e9rie de palavras menos pr\u00f3prias\u201d (JVP, 19\/11\/2011). \u201cT\u00edtuto: N\u00e3o deixe cair a TSU, V\u00edtor. Ainda&#8230;! (CL, 29\/2\/2012). <strong>Surge, em Agosto de 2012, a altera\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo do Trabalho, embaratecendo o custo do trabalho extraordin\u00e1rio, com o fim de dias de f\u00e9rias e feriados, do descanso compensat\u00f3rio, com a cria\u00e7\u00e3o de bancos de horas individuais e limites \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o colectiva. A ideia era embaratecer o custo de trabalho em 5,23% e isso estimularia o emprego em 2,54% no primeiro ano e 10,55% a longo prazo. <\/strong>\u201cAnt\u00f3nio Borges afirmou em entrevista ao [canal] Etv que a redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica, \u00e9 uma urg\u00eancia, o que motivou cr\u00edticas severas dos partidos da Oposi\u00e7\u00e3o. Mas, a verdade \u00e9 que o \u201812\u00ba ministro&#8217; do Governo de Passos Coelho disse uma evid\u00eancia (&#8230;) o aumento da competitividade s\u00f3 l\u00e1 vai, no curto prazo, por factores como a redu\u00e7\u00e3o salarial\u201d (AC, 4\/6\/2012). \u201cQuando se l\u00ea o relat\u00f3rio do FMI sobre os sucessos e os fracassos do plano de ajustamento portugu\u00eas at\u00e9 \u00e0 data, h\u00e1 um crit\u00e9rio que parece decisivo. O que respeita ao \u201cpov\u00e3o\u201d, de pessoas e empresas (lei laboral, lei das rendas, ajustamento do d\u00e9fice externo), est\u00e1 do lado do sucesso; j\u00e1 o que inclui grandes empresas (rendas da energia, concurso de telecomunica\u00e7\u00f5es, empresas do Estado, portos e ferrovia) est\u00e1 do lado dos insucessos. Estranha coincid\u00eancia\u201d (PSG, 19\/7\/2012). \u201cSe todos os pa\u00edses do euro come\u00e7arem a cortar custos salariais, o resultado \u00e9 ficarmos todos mais pobres\u201d (HG, 7\/11\/2012). <strong>Mas passado um ano sobre o efeito da reforma laboral, os resultados s\u00e3o frustrantes e os problemas mant\u00e9m-se, mas j\u00e1 com novas solu\u00e7\u00f5es \u00e0 vista. <\/strong>\u201cUm ano depois ainda s\u00e3o escassos os efeitos dessa reforma considerada t\u00e3o crucial. (&#8230;)A precariedade do trabalho s\u00f3 existe porque existem nas empresas um monte de pessoas que ainda t\u00eam um contrato vital\u00edcio de perman\u00eancia mesmo que desempenhem mal o seu trabalho\u201d (JVP, 3\/8\/2013). \u201cCom a troika o que mudou? Alguma coisa, mas muito pouco. Reduziram-se custos salariais, nomeadamente no trabalho extraordin\u00e1rio. Mas continua a ser legalmente imposs\u00edvel reduzir sal\u00e1rios. Para os sal\u00e1rios descerem \u00e9 preciso o acordo do trabalhador ou passar pelo desemprego (&#8230;) Com infla\u00e7\u00e3o baixa, impedir que os pre\u00e7os e sal\u00e1rios diminuam \u00e9 condenar o pais ao desemprego\u201d (HG, 17\/12\/2013). \u201cO Tribunal Constitucional (\u2026) anulou o despedimento por extin\u00e7\u00e3o do posto de trabalho e por inadapta\u00e7\u00e3o, por considerar que ajusta causa passava a ser um conceito indeterminado. O que o Governo quer \u00e9 que o despedimento individual seja t\u00e3o f\u00e1cil como o despedimento colectivo, pois, cr\u00ea, quanto mais f\u00e1cil for despedir mais f\u00e1cil ser\u00e1 contratar\u201d (PSG, 25\/1\/2014). \u201cProibir o despedimento, congelar rendimentos ou regras de aumentos salariais quando a empresa vende menos ou o Estado recebe menos impostos, ou tem de gastar mais para apoiar quem mais precisa, \u00e9 reivindicar o direito a ter sol todos os dias\u201d (HG, 7\/3\/2014). \u201cPSD, CDS e PS precisam de acordar uma altera\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o que flexibilize quatro \u00e1reas do regime: 1 &#8211; estrutura do Estado (permitir despedimentos e redu\u00e7\u00f5es salariais); 2 &#8211; mercado laboral (flexibiliza\u00e7\u00e3o); (&#8230;) \u00c9 muita coisa? \u00c9. Mas \u00e9 inevit\u00e1vel\u201d (CL, 14\/5\/2014).<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Os jornalistas est\u00e3o contra, sim, a ideia de mais medidas de austeridade pelo <strong>\u201clado da receita\u201d<\/strong>, qualificando a subida da TSU dos trabalhadores como mais um imposto. Est\u00e3o desiludidos. A op\u00e7\u00e3o do Governo, semanas depois da crise da TSU, de lan\u00e7ar o \u201cenorme aumento de impostos\u201d para 2013, engrossa mais a contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do Memorando. A crise de Setembro torna-se a ponta vis\u00edvel do <em>iceberg<\/em> te\u00f3rico: a austeridade expansionista \u00e9 uma miragem, o vazio pol\u00edtico de um caminho alternativo ao passado, prometido um ano antes. \u201cO Governo mais ideol\u00f3gico da Democracia, o que prometeu mudar o regime econ\u00f3mico de Portugal e aproveitar a oportunidade, \u00fanica, para reformar o Pa\u00eds, so\u00e7obrou a uma realidade que n\u00e3o foi capaz de antecipar (&#8230;). O Governo abandonou, definitivamente, a vontade de mudar o Pa\u00eds\u201d (AC, 4\/10\/2012). \u201cH\u00e1 um ano, muitos portugueses acreditavam. Estavam mobilizados para salvar o pa\u00eds. (&#8230;) Hoje, muitas pessoas s\u00f3 querer\u00e3o salvar-se a si mesmas. A si, aos seus. A emerg\u00eancia tornou-se individual. O Governo diz-se sem alternativas\u201d (PSG, 16\/10\/2012). \u201cO memorando da Troika, mesmo incompleto como \u00e9, permitia que o Governo fizesse o que se comprometeu a fazer quando tomou posse. Libertar o Pa\u00eds e democratizar a economia. Mais, exigia que o Governo o fizesse, sob pena de chegarmos a Junho de 2014 (&#8230;) mais pobres e sem qualquer tipo de perspectiva de futuro\u201d (AC, 29\/10\/2012). \u201cO Governo, na actual conjuntura econ\u00f3mica, social e pol\u00edtica, n\u00e3o pode concretizar as ideias mais liberais deste PSD de querer ter na sua hist\u00f3ria o sucesso de ter corrigido os graves desequil\u00edbrios do Pa\u00eds\u201d (HG, 14\/11\/2012). \u201cO Governo j\u00e1 percebeu que a estrat\u00e9gia que seguiu at\u00e9 agora est\u00e1 esgotada\u201d (AC, 20\/11\/2012).<\/p>\n<p>Os jornalistas saem da crise de Setembro, na sua maioria, desiludidos e a exigir um novo \u201cf\u00f4lego\u201d ao Governo para enveredar por uma reforma do \u201clado da despesa p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5) De Dezembro de 2012 ao in\u00edcio de 2014<\/strong>, a ideia dominante dos jornalistas \u00e9, precisamente, a do regresso \u00e0 sua preocupa\u00e7\u00e3o de fundo: a da <strong>inevitabilidade da austeridade pelo \u201clado da despesa p\u00fablica\u201d<\/strong> (corte de funcion\u00e1rios, de vencimentos, de despesa social), em articula\u00e7\u00e3o com urg\u00eancia da defini\u00e7\u00e3o das novas fun\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n<p>Politicamente, \u00e9 um per\u00edodo muito rico em acontecimentos: o rescaldo da discuss\u00e3o or\u00e7amental sobre o \u201cenorme aumento de impostos\u201d; o regresso aos mercados financeiros a 23\/1\/2013 (com uma emiss\u00e3o a 5 anos) e a 7\/5\/ 2013 (a dez anos)no 1\u00ba trimestre de 2013; \u00e9 conhecido o relat\u00f3rio do FMI sobre a necessidade de redimensionar o Estado; a flexibiliza\u00e7\u00e3o pela <em>troika <\/em>das metas or\u00e7amentais e das condi\u00e7\u00f5es de pagamento da d\u00edvida p\u00fablica; a demiss\u00e3o do ministro Miguel Relvas (ap\u00f3s um longa campanha popular nas ruas); o arrastamento no tempo da 7\u00aa avalia\u00e7\u00e3o da <em>troika <\/em> ao cumprimento do Memorando e que redundaria numa autocr\u00edtica da <em>troika <\/em>ao desenho do Memorando; a crise no Chipre e as tergiversa\u00e7\u00f5es da UE sobre a tributa\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios; a remodela\u00e7\u00e3o governamental motivada pela demiss\u00e3o de um membro de governo ap\u00f3s ter sido travado em ir contra os detentores de rendas excessivas (no sector el\u00e9ctrico); a aceita\u00e7\u00e3o pela troika de d\u00e9fices or\u00e7amentais mais elevados em 2013 e 2014 (respectivamente, de 5,5% do PIB em vez de 4,5% e de 4% em vez de 2,5%); o surgimento do tema de um poss\u00edvel programa cautelar; as tens\u00f5es na coliga\u00e7\u00e3o de direita que redundam na demiss\u00e3o &#8211; a 2\/7\/2013 &#8211; do ministro das Finan\u00e7as, pilar do Governo e que redundam na crise governamental desencadeada com a demiss\u00e3o de Paulo Portas, a 3\/7\/2013; o surgimento do tema da insustentabilidade da d\u00edvida p\u00fablica; o an\u00fancio da reforma do IRC como forma de relan\u00e7ar o investimento; os v\u00e1rios chumbos do Tribunal Constitucional, nomeadamente as inten\u00e7\u00f5es de ir ao encontro das exig\u00eancias da <em>troika <\/em>para um pronunciado corte de despesa; a atenua\u00e7\u00e3o nos esfor\u00e7os de corte da despesa p\u00fablica; e os primeiros sinais de retoma econ\u00f3mica ainda em 2013.<\/p>\n<p>Ao longo deste per\u00edodo, adensa-se a ideia da falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica por parte do Governo. \u201c\u00c9 preciso que o corte na despesa do Estado seja mais do que sal\u00e1rios e pens\u00f5es\u201d (PSG, 2\/10\/2012). Era melhor \u201coutra austeridade\u201d, n\u00e3o menos mas que \u201cobriga a escolhas e op\u00e7\u00f5es, a mudar o modelo de financiamento na Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade e Seguran\u00e7a Social, que torne o Estado mais eficiente, com menos funcion\u00e1rios\u201d (AC, 2\/10\/2012). O Governo passa a ideia de que se mostra incapaz de ter um discurso coerente sobre a necessidade da austeridade: \u201cFic\u00e1mos todos chocados quando o presidente do BPI respondeu \u00e0 pergunta ret\u00f3rica \u2018O pa\u00eds ainda aguenta mais austeridade?\u2019 com a resposta \u2018Ai aguenta, aguenta\u2019. Aguentaria, sim, se a austeridade fosse percebida como justa, mesmo sendo injusta\u201d (HG, 5\/11\/2012). Tudo d\u00e1 a impress\u00e3o de se querer apenas cumprir as metas: \u201cO Governo chega tarde, e a m\u00e1s horas, \u00e0 discuss\u00e3o sobre a refunda\u00e7\u00e3o do Memorando, \u00e0 reforma do Estado, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da despesa\u201d (AC, 14\/11\/2012). E os jornalistas come\u00e7am a desligar-se politicamente da coliga\u00e7\u00e3o de direita: \u201cO problema \u00e9 mesmo desta Direita que est\u00e1 no Governo e que prometeu mudar, mas escolheu um caminho que nos pode levar a ficar ainda pior\u201d (AC, 19\/11\/2012). \u201cSim, \u00e9 verdade que o PSD vendeu a ilus\u00e3o de que bastava cortar umas \u2018gorduras\u2019, que n\u00e3o ia doer nada. Pois n\u00e3o \u00e9 verdade. O Estado \u00e9 um prestador de servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o, de sa\u00fade, de seguran\u00e7a, de apoio social. \u00c9 inevit\u00e1vel que perante a necessidade de reduzir gastos tenha de reduzir sal\u00e1rios\u201d (HG, 11\/1\/2013). O director do Di\u00e1rio Econ\u00f3mico defende um novo Setembro: \u201cDever\u00edamos todos ir para a rua exigir novas pol\u00edticas, porque as respostas de Passos Coelho e V\u00edtor Gaspar para a redu\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice foram medidas tempor\u00e1rias de corte de despesa e um aumento de impostos que est\u00e1 a matar a economia, a provocar recess\u00e3o e desemprego\u201d (AC, 4\/3\/2013).<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o tempo passa e que o Governo vai adiando a reestrutura\u00e7\u00e3o do Estado, avolumam-se, pois, os sinais de decep\u00e7\u00e3o (ver Caixa: O discurso da desilus\u00e3o). Na opini\u00e3o dos jornalistas, o Memorando continua a ser mal aplicado e da\u00ed da raz\u00e3o do seu insucesso, o que aos poucos entronca com a cr\u00edtica \u00e0 gest\u00e3o da conjuntura pol\u00edtico-partid\u00e1ria\/eleitoral. Mas quanto menos resultados se v\u00eaem, mais se tende a encontrar causas objectivas (estruturais) para a crise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: O discurso da desilus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO t\u00fanel foi o Memorando da troika. Era o t\u00fanel de salva\u00e7\u00e3o, \u00fanico caminho para regressar do precip\u00edcio. E sem alternativa (&#8230;) N\u00e3o havia alternativa \u00e0 troika. Hoje h\u00e1? H\u00e1 &#8211; mas \u00e9 pior. Porque as \u00fanicas alternativas em cima da mesa s\u00e3o as radicais, tais como sair do euro ou n\u00e3o pagar a divida p\u00fablica\u201d (PSG, 7\/1\/2013). \u201cA troika entrou em Portugal com um cabaz de objectivos (&#8230;). Mas, no fundo, a m\u00e9trica de sucesso da equipa permanente que est\u00e1 em Portugal \u00e9 uma: sair daqui\u201d (PSG, 10\/1\/2013). \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil diz\u00ea-lo. Mas a confer\u00eancia promovida pelo Governo sobre a reforma do Estado foi de uma triste pobreza\u201d (HG, 17\/1\/2013). \u201cBasta. Chega. Estou farto de debates sobre o Estado. (&#8230;) Quem quer mesmo debater o Estado, o que temos, o que queremos e o que vamos ter? Ningu\u00e9m. \u00c9 s\u00f3 teatro\u201d (PSG, 17\/1\/2013). \u201cO Pa\u00eds est\u00e1 numa espiral recessiva e os portugueses j\u00e1 mergulharam numa espiral depressiva, porque o Governo decidiu gerir o Pa\u00eds sem sair do gabinete (&#8230;) O Governo s\u00f3 tem uma sa\u00edda, \u00e9 regressar \u00e0 casa de partida e abrir um verdadeiro processo pol\u00edtico de renegocia\u00e7\u00e3o do acordo com a troika\u201d (AC, 21\/2\/2013). \u201cN\u00f3s pens\u00e1vamos que t\u00ednhamos as respostas todas. A crise desempregaria, a austeridade tributaria, as reformas incomodariam, mas no meio haveria um meio e no fim haveria um fim. (&#8230;) \u00c9 quase pat\u00e9tico ver como os ortodoxos da austeridade dizem agora o contr\u00e1rio\u201d (PSG, 4\/3\/2013). \u201cTudo falhou\u201d (NS, 13\/3\/2013). \u201cO Governo est\u00e1 bloqueado, o Pa\u00eds est\u00e1 bloqueado. (&#8230;)O PSD esfor\u00e7a-se, agora, por reescrever a hist\u00f3ria para explicar o falhan\u00e7o do ministro das Finan\u00e7as. O programa, dizem os seus dirigentes, foi mal desenhado (AC, 18\/3\/2013). \u201cO Governo merece ser censurado, seguramente\u201d (AC, 4\/4\/2013). \u201cPassos n\u00e3o governa, obedece. (&#8230;) Quantas vezes foi dito e escrito que \u2018falta pol\u00edtica\u2019? Quantas?! E para que serviu? Para nada. Vozes de c\u00e9u n\u00e3o chegam aos burros\u201d (PSG, 20\/2\/2013). \u201cPassos Coelho quis fazer do programa de ajustamento a via para reformar o Estado e criar institui\u00e7\u00f5es para uma sociedade mais moderna (&#8230;). N\u00e3o o conseguiu porque nem tentou\u201d (PSG, 8\/4\/2013). \u201cTransform\u00e1mos os chefes de miss\u00e3o quase em estrelas pop. Deposit\u00e1mos neles a esperan\u00e7a de corrigir de vez erros identificados at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o durante as \u00faltimas quase duas d\u00e9cadas. Que fizeram eles? Cometeram erros ainda mais graves. (&#8230;) Erros pelos quais n\u00e3o s\u00e3o responsabilizados e que est\u00e3o a fragilizar as democracias\u201d (HG, 2\/5\/2013). \u201cFalemos verdade. Este Governo n\u00e3o fez qualquer reforma da despesa do Estado. Nada! Zero!\u201d (JVP, 18\/5\/2013)<strong>. <\/strong>\u201cO Governo bateu numa parede, pelo menos neste ciclo pol\u00edtico. E j\u00e1 n\u00e3o conseguir\u00e1 fazer muito mais\u201d (AC, 12\/6\/2013). \u201cO pr\u00f3prio FMI reconhece agora o fracasso e, sobretudo, a impostura consciente dos seus pr\u00f3prios planos\u201d (PSG, 20\/6\/2013). <strong>\u201c<\/strong>O gui\u00e3o da reforma do Estado que o ministro Paulo Portas vai apresentar vai ser uma m\u00e3o-cheia de nada (&#8230;). A troika tamb\u00e9m v\u00ea esta evid\u00eancia, mas est\u00e1 de m\u00e3os atadas (&#8230;). Porque j\u00e1 nem V\u00edtor Gaspar, este ou outro Gaspar qualquer, os convence da bondade da reforma do Estado portugu\u00eas\u201d (AC, 1\/7\/2013). \u201cFoi esta gente que elegemos, em que confi\u00e1mos, que mandat\u00e1mos, \u00e9 esta gente que permanece gozando de uma contesta\u00e7\u00e3o sem viol\u00eancia e da toler\u00e2ncia social \u00e0 austeridade. N\u00e3o foi o pa\u00eds que falhou. Foi o Governo e a Europa. (&#8230;) O fracasso confesso de Gaspar \u00e9 o fracasso de uma pol\u00edtica econ\u00f3mica dita liberal, que teve como ide\u00f3logos pessoas que aqui foram chamadas de estupidamente inteligentes, incluindo Ant\u00f3nio Borges, Braga de Macedo e, claro, V\u00edtor Gaspar. A l\u00f3gica de destrui\u00e7\u00e3o da m\u00e1 economia induzida pela escassez n\u00e3o se cumpriu\u201d (PSG, 2\/7\/2013). \u201cEu acreditava mesmo que com um chicote em cima de n\u00f3s, n\u00e3o ter\u00edamos outra hip\u00f3tese sen\u00e3o reformar o Estado e o Pais. \u00c9 hora de dizer que, depois de ver o que vi nos \u00faltimos meses (que culminou com a paralisa\u00e7\u00e3o do Governo), enganei-me redondamente. (&#8230;)Portugal \u00e9 um pa\u00eds irreform\u00e1vel\u201d (CL, 2\/7\/2013). \u201cQuando s\u00e3o muitas as d\u00favidas sobre a capacidade do Governo de levar a cabo a reforma do Estado, V\u00edtor Gaspar deixa claro que n\u00e3o tem d\u00favidas nenhumas. N\u00e3o ser\u00e1 mesmo para fazer (&#8230;). A certid\u00e3o de \u00f3bito est\u00e1 passada\u201d (AC, 2\/7\/2013). \u201cO actual Memorando (&#8230;) est\u00e1 morto\u201d (JVP, 3\/7\/2013). \u201cO programa de ajustamento foi executado da pior forma do ponto de vista da redu\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice (&#8230;). Gaspar percebeu isso e foi embora, Paulo Portas percebeu isso e quis ir embora. Passos Coelho percebeu isso, mas aguentou, e mudou o discurso. (&#8230;) acabou o Governo mais troikista do que a troika\u201d (AC, 17\/9\/2013). \u201cPerante os objectivos expl\u00edcitos do programa de ajustamento, ele falhou redondamente (&#8230;) O perfil da economia portuguesa est\u00e1 longe de ter mudado radicalmente desde 2008 (&#8230;)N\u00e3o vamos querer viver neste futuro\u201d (NS, 26\/10\/2013). \u201cEstava-se mesmo a ver que a montanha ia parir um rato. E pariu mesmo. O gui\u00e3o para a reforma do Estado, de Paulo Portas, \u00e9 de uma pobreza confrangedora\u201d (CL, 1\/11\/2013). \u201cApesar do documento nos presentear com a frase cortar \u00e9 reduzir, reformar \u00e9 melhorar, deparamo-nos com um rol de medidas onde \u00e9 claro que a prioridade \u00e9 apenas cortar na despesa\u201d (JVP, 2\/11\/2013).<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>5) Ao longo do 1\u00ba semestre de 2014<\/strong>, quando se torna mais clara a retoma econ\u00f3mica, atenuam-se as palavras pessimistas. <strong>Aplaudem-se os resultados<\/strong>, sem que sejam associados a uma n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia do Memorando ou at\u00e9 a um recuo na intensidade da aplica\u00e7\u00e3o das reformas inicialmente tra\u00e7adas, como os pr\u00f3prios jornalistas tinham criticado anteriormente. Tudo passa a ajustar-se: \u201cO que as projec\u00e7\u00f5es do Banco de Portugal mostram \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel ter crescimento com saneamento das finan\u00e7as p\u00fablicas\u201d (CL, 26\/7\/2013)<strong>. <\/strong>\u201cAfinal, passados doze meses, h\u00e1 resultados e h\u00e1 esperan\u00e7a\u201d (AC, 2\/1\/2014). \u201cO nosso programa est\u00e1 errado? N\u00e3o: a confian\u00e7a de consumidores e empres\u00e1rios n\u00e3o est\u00e1 a voltar? A economia n\u00e3o voltou a crescer? O desemprego n\u00e3o est\u00e1 em queda? O investimento n\u00e3o est\u00e1 a melhorar? A economia n\u00e3o ficou mais competitiva (v.g. exporta\u00e7\u00f5es)? Os juros n\u00e3o est\u00e3o em queda?\u201d (CL, 9\/1\/2014). Mas ao mesmo tempo nota-se uma recentragem nos objectivos: <strong>passa a sublinhar-se o pouco que se conseguiu<\/strong>: \u201cNem que seja pelo que j\u00e1 corrigimos nas nossas rela\u00e7\u00f5es com o mundo financeiro, os sacrif\u00edcios por que pass\u00e1mos nestes \u00faltimos tr\u00eas anos valeram a pena\u201d (HG, 1\/1\/2014). \u201cO programa de ajustamento tem, e teve, virtudes, o primeiro dos quais \u00e9 desde logo garantir que voltaremos a ter capacidade para o Estado se financiar sozinho\u201d (AC, 4\/1\/2014). \u201cActualmente podemos n\u00e3o ver o futuro com euforia, mas pelo menos a economia deixou de se afundar\u201d (HG, 1\/4\/2014). \u201cA soberania como bandeira pol\u00edtica \u00e9, numa interpreta\u00e7\u00e3o ben\u00e9vola, um disparate irreflectido (&#8230;). A soberania \u00e9 um conceito que n\u00e3o faz sentido, mesmo que n\u00e3o existisse troika em Portugal\u201d (HG, 9\/1\/2014). H\u00e1 a certeza sobre <strong>a fragilidade das altera\u00e7\u00f5es<\/strong> face ao programa inicialmente tra\u00e7ado. Aceita-se que as ideias iniciais \u2013 que os jornalistas tanto abra\u00e7aram &#8211; eram afinal \u201cum mito\u201d: \u201cTalvez seja altura de lembrar que nenhuma economia consegue fazer mudan\u00e7as estruturais em tr\u00eas anos. \u00c9 mais \u00e0 d\u00e9cada&#8230;\u201d (CL, 2\/1\/2014). \u201cQuando foi conhecido o programa de ajustamento assinado com a troika, criou-se a ideia, um mito, como se percebe, de que o Pa\u00eds seria outro ao cabo de tr\u00eas anos\u201d (AC, 6\/3\/2014). \u201cA principal d\u00favida met\u00f3dica assenta na necessidade de perceber se houve ou n\u00e3o uma mudan\u00e7a estrutural do sector empresarial portugu\u00eas. Ou, pelo menos, se est\u00e1 em curso. O Banco de Portugal diz que sim, e, pelos n\u00fameros, eu acredito\u201d (AC, 27\/3\/2014). Torna-se claro para os jornalistas que <strong>os grandes objectivos do Memorando ficaram pelo caminho<\/strong> e que a austeridade ter\u00e1 de continuar no futuro. \u201cOs partidos permanecem capturados pelos mesmos grupos de poder de sempre: banca, Lisboa, grandes empresas, clientelas e sindicatos de votos\u201d (PSG, 4\/1\/2014). \u201cH\u00e1 todo um trabalho na frente das contas p\u00fablicas, que n\u00e3o foi feito nestes tr\u00eas anos de troika\u201d (HG, 27\/1\/2014). \u201cOs sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos v\u00e3o ter de ser cortados tal como as pens\u00f5es de reforma. De forma definitiva\u201d (HG, 21\/2\/2014). \u201cL\u00eaem-se os relat\u00f3rios do FMI e da Comiss\u00e3o Europeia (&#8230;)e acaba-se com duas perguntas a descer a l\u00edngua. Primeira: o que and\u00e1mos n\u00f3s ent\u00e3o a fazer? Segunda: o que andaram eles ent\u00e3o a fazer?\u201d (PSG, 22\/2\/2014). \u201cSa\u00edmos do bloco operat\u00f3rio, mas ainda estamos nos cuidados intensivos\u201d (JVP, 18\/4\/2014). \u201cPorque isto n\u00e3o acaba aqui. Antes acabasse\u201d (PSG, 3\/5\/2014). \u201cN\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es. (&#8230;) Anunciar amanh\u00e3s que cantam, quando ainda temos de estar preparados para tempestades, \u00e9 vender sonhos que se podem transformar em pesadelos\u201d (HG, 5\/5\/2014). \u201cN\u00f3s vamos ter de aprender a viver com o euro. O que significa ser muito mais disciplinado financeiramente e aceitar que os sal\u00e1rios podem ter de descer para enfrentar conjunturas de crise sem destruir emprego\u201d (HG, 16\/5\/2014). De resto fica a frustra\u00e7\u00e3o de ver vivido uma revolu\u00e7\u00e3o falhada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAIXA: A Revolu\u00e7\u00e3o falhada, os vira-casacas e as suas v\u00edtimas<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA rela\u00e7\u00e3o que o Governo tem constru\u00eddo entre o Estado e os cidad\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o padece apenas da habitual opacidade. Faz-nos sentir a todos irrelevantes. Desprezados\u201d (HG, 17\/1\/2014). \u201cA fadiga de austeridade est\u00e1 outra vez a\u00ed, e agora, anda de m\u00e3os dadas com a vontade de ganhar elei\u00e7\u00f5es em com\u00edcios e manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00e9-eleitorais\u201d (AC, 3\/4\/2014). \u201cO ministro da Economia, Ant\u00f3nio Pires de Lima, definiu 59 prioridades de infraestruturas para o Pa\u00eds nos pr\u00f3ximos sete anos, portanto n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o travou a proposta dos grupos de interesse que se sentam \u00e0 mesa do or\u00e7amento para o investimento em 30 obras priorit\u00e1rias, como lhe acrescentou mais 29\u201d (AC, 4\/4\/2014). \u201cSair de Portugal \u00e9 confirmar o seu sucesso. Foi para isso que vieram: para poderem sair. Se o pa\u00eds fica melhor ou pior j\u00e1 \u00e9 assunto de quem c\u00e1 fica. Eles fizeram o seu trabalho. O Governo n\u00e3o. As reformas estruturais foram t\u00e3o pouco reformas e t\u00e3o pouco estruturais (&#8230;). A oportunidade foi perdida\u201d (PSG, 3\/5\/2014). \u00c9 j\u00e1 poss\u00edvel olhar para tr\u00e1s e identificar os mitos que foram criados h\u00e1 tr\u00eas anos, por acto e omiss\u00e3o, por raz\u00f5es puramente pol\u00edtico-partid\u00e1rias, por voluntarismo ing\u00e9nuo ou apenas por incompet\u00eancia, e que nos d\u00e3o, a todos, a terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de uma vit\u00f3ria amarga, de um sucesso doloroso. (&#8230;) O Pa\u00eds seria muito diferente ao fim de tr\u00eas anos de programa, seria uma esp\u00e9cie de refunda\u00e7\u00e3o, e os portugueses viveriam melhor, em melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e financeiras. Nenhum dos mitos se confirmou, n\u00e3o poderiam confirma-se num prazo t\u00e3o curto, mesmo que tudo fosse bem feito, e n\u00e3o foi. (&#8230;) Nem a economia mudou assim tanto \u2013 e deveria ter mudado mais qualquer coisa \u2013 nem as pessoas vivem melhor \u2013 n\u00e3o poderiam, porque perderam rendimento. Mas existiam expectativas, que foram defraudadas.\u201d (AC, 5\/5\/2014). \u201cO balan\u00e7o destes tr\u00eas anos est\u00e1 longe daquele que o primeiro-ministro fez. (&#8230;) o programa de ajuda externa n\u00e3o correu bem em Portugal, como tamb\u00e9m n\u00e3o correu bem na Irlanda e ainda menos na Gr\u00e9cia. Os custos do reequilibro financeiro foram muito elevados\u201d (HG, 5\/5\/2014). \u201cAs reformas que este Governo j\u00e1 enterrou (&#8230;) continuam a ser necess\u00e1rias (&#8230;). Temo que ainda venhamos a ter saudades da troika\u201d(AC, 6\/5\/2014). \u201cTr\u00eas anos depois, o ajustamento deixa uma classe m\u00e9dia pauperizada, meio milh\u00e3o de desempregados de longa dura\u00e7\u00e3o, 300 mil jovens emigrados, um Estado social enfraquecido, um modelo econ\u00f3mico assente em baixos sal\u00e1rios e uma enorme carga fiscal, que ser\u00e1 ainda agravada em 2015. Mas, claro, o pa\u00eds conseguiu regressar aos mercados pelo seu p\u00e9. \u00c9 a isto que o pensamento dominante chama sucesso\u201d (NS, 10\/5\/2014). \u201cUma economia cujo crescimento depende de uma s\u00f3 refinaria \u00e9 uma economia s\u00f3lida? (&#8230;) O Banco de Portugal tem dito que sim. \u00c9 o maior apoiante do Governo nesta tese, a de que a economia sofreu mesmo uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural: torn\u00e1mo-nos um pa\u00eds exportador e temos contas externas equilibradas de vez. (&#8230;)N\u00e3o, o nosso Estado n\u00e3o beneficiou de nenhuma reforma (\u2026) N\u00e3o, a nossa seguran\u00e7a social n\u00e3o foi reformada, apenas cortou. (\u2026) N\u00e3o, as nossas contas p\u00fablicas n\u00e3o cortaram gorduras nem o seu equil\u00edbrio depende de outra coisa que n\u00e3o sejam cortes&#8230; aparentemente tempor\u00e1rios. E de impostos, impostos, impostos (\u2026) Acabou-se a terceira interven\u00e7\u00e3o externa em Portugal em 40 anos de democracia. Ou talvez tenha sido ela a arrumar-nos a n\u00f3s. \u00c9 muito duvidoso que estejamos preparados para enfrentar a concorr\u00eancia externa, que tenhamos aprendido a viver com uma moeda \u00fanica como a alem\u00e3 numa economia como a portuguesa, que nos contentemos com uma popula\u00e7\u00e3o emigrada, tributada ou desempregada\u201d (PSG, 17\/5\/2014). \u201cAs perspectivas criadas em 2011 foram frustradas, nem \u00e9 preciso dizer de que forma. Toda a gente sabe\u201d (PSG, 31\/5\/2014).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Se os jornalistas especializados desempenham um papel fulcral na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o social, ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que, na crise vivida pela sociedade portuguesa de 2010\/14, a opini\u00e3o desses jornalistas contribuiu para reiterar a vers\u00e3o oficial sobre as causas da crise, sobre a necessidade de uma das mais violentas interven\u00e7\u00f5es externas em Portugal e sobre a inevitabilidade da pr\u00f3pria terapia de austeridade.<\/p>\n<p>Ao longo de 4,5 anos, a opini\u00e3o m\u00e9dia deste painel vincou-se como defensora de uma aplica\u00e7\u00e3o estrita do Memorando, com vista a um ajustamento econ\u00f3mico de emerg\u00eancia e de altera\u00e7\u00e3o profunda da estrutura da pr\u00f3pria economia. Foi na defesa desses objectivos que criticou tergiversa\u00e7\u00f5es e adiamentos por parte do Governo, que \u2013 aos olhos dos pr\u00f3prios jornalistas \u2013 seriam respons\u00e1veis pelo falhan\u00e7o geral do Memorando.<\/p>\n<p>De 2010 at\u00e9 ao desembarque da troika, a maioria dos jornalistas do painel partilhou com as autoridades uma teoria interpretativa dos acontecimentos. Das suas cr\u00f3nicas, extrai-se a ideia de que os desequil\u00edbrios econ\u00f3micos de Portugal \u2013 externo, or\u00e7amental e no emprego \u2013 tinham a sua origem nos factos de: 1) Portugal produzir pouco e mal, sobretudo para o mercado interno, e viver por isso de importa\u00e7\u00f5es (para o seu consumo, investimento e at\u00e9 para exportar), em resultado de uma cr\u00f3nica \u201cfalta de competitividade externa\u201d das empresas nacionais; 2) Essa \u201cfalta de competitividade\u201d ter sido camuflada desde a moeda dessas pessoas ficialmente mantidass artificiais &#8211; desvaliza\u00e7arcado externo. atraente como actividade. er mal aplicado, afinal\u00fanica em 2000, ao viver a sociedade de cr\u00e9dito barato (\u201cvivemos acima das nossas possibilidades\u201d) e de fundos p\u00fablicos mal geridos, retirados \u00e0 sociedade atrav\u00e9s de impostos; 3) O Estado estar capturado por um conjunto vasto de <em>lobbies<\/em> (\u201cinteresses\u201d) que vive \u00e0 custa do Or\u00e7amento &#8211; funcion\u00e1rios p\u00fablicos, professores, m\u00e9dicos, enfermeiros, magistrados, pol\u00edcias, partidos, pol\u00edticos, etc., culminando com os benefici\u00e1rios de investimentos p\u00fablicos e, malignamente, de corrup\u00e7\u00e3o e desbaratamento de recursos p\u00fablicos (\u201ccada servi\u00e7o p\u00fablico tem um interesse por detr\u00e1s\u201d); 4) Esses \u201cinteresses\u201d serem obst\u00e1culos naturais \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o do Estado, de forma a equalizar o n\u00edvel de servi\u00e7o p\u00fablico ao baixo n\u00edvel do que se produz (\u201cquem n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e3o tem v\u00edcios\u201d); 5) toda esta situa\u00e7\u00e3o ter gerado dois desequil\u00edbrios g\u00e9meos: um externo, delapidando as nossas reservas, e outro or\u00e7amental. E aqui entra a troika.<\/p>\n<p>Ao aceitar a validade de este diagn\u00f3stico, aceitou-se como v\u00e1lida a terapia correspondente: 1) O Estado est\u00e1 no centro das reformas, ao absorver recursos da economia que poderiam melhorar a competitividade das empresas; 2) Como tal, h\u00e1 que reduzir a despesa p\u00fablica (reduzir funcion\u00e1rios, vencimentos, despesa social e \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o do Estado, privatizar), tributar rendimentos (para reduzir a procura interna), mexer-se na legisla\u00e7\u00e3o laboral (para reduzir rendimentos e flexibilizando despedimentos), cortar-se com os <em>lobbies<\/em> que beneficiam de <em>rendas excessivas<\/em>; 3) Resultado: Menor despesa e mais impostos reduzem o d\u00e9fice or\u00e7amental e, com saldos prim\u00e1rios positivos, a d\u00edvida p\u00fablica; 4) A quebra de rendimento reduz a procura de cr\u00e9dito, abatendo o rendimento artificial das empresas e dos contribuintes, o que aumentar\u00e1 a poupan\u00e7a e tornar\u00e1 o mercado interno menos atraente como destino de actividade; 5) Ao reduzir os custos de contexto (rendas excessivas e custos do trabalho), melhora-se as condi\u00e7\u00f5es de actividade das empresas que olhar\u00e3o sobretudo para o mercado externo; 6) O desemprego &#8211; vindo de actividades artificialmente mantidas e viradas para o mercado interno \u2013 subir\u00e1, mas a \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d dessas pessoas ter\u00e1 o lado bom de for\u00e7ar a uma descida dos sal\u00e1rios (por excesso de oferta de m\u00e3o-de-obra) e torn\u00e1-las dispon\u00edveis para actividades \u201creais\u201d, viradas para o mercado externo.<\/p>\n<p>Foi esta grelha de leitura que permitiu concluir que a terapia necess\u00e1ria fora insuficientemente aplicada pelo Governo S\u00f3crates em 2010\/11 e que essa fora a causa do incumprimento das metas or\u00e7amentais e da relut\u00e2ncia pol\u00edtica em aplicar dr\u00e1stica e resolutamente o <em>medicamento<\/em>, ainda que tivesse efeitos imediatos <em>t\u00f3xicos<\/em>. Foi essa malha de leitura que levou os jornalistas a defender esse <em>medicamento <\/em>como um programa imprescind\u00edvel, precisamente para evitar o FMI. Se no in\u00edcio de 2011, o painel de jornalistas era contra a vinda do FMI &#8211; seria \u201cuma rendi\u00e7\u00e3o\u201d, uma \u201chumilha\u00e7\u00e3o\u201d, uma \u201crendi\u00e7\u00e3o\u201d, uma \u201cperdi\u00e7\u00e3o\u201d, um \u201cdesprest\u00edgio pol\u00edtico total\u201d, com efeitos contraproducentes junto dos investidores externos &#8211; passados meses, numa altura em que o sector financeiro muda de posi\u00e7\u00e3o, estes jornalistas passam a invectivar o poder pol\u00edtico a aceitar o mesmo FMI, como embaixador do programa de salva\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia dessa altera\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o, o Memorando de Entendimento \u00e9 elogiado como um programa quase revolucion\u00e1rio que visa alterar os pilares mals\u00e3os da economia nacional, atrav\u00e9s de uma austeridade for\u00e7ada, uma austeridade sonhada, a aplicar do \u201clado da despesa p\u00fablica\u201d. \u00c9 por isso que elogiam a forma\u00e7\u00e3o de um governo de coliga\u00e7\u00e3o de direita por, finalmente, ap\u00f3s d\u00e9cadas de in\u00e9rcia, ir aplicar um verdadeiro programa nacional. A maioria dos jornalistas do painel embarca num programa pol\u00edtico e v\u00e3o defend\u00ea-lo at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>\u00c9 partindo precisamente dessa posi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio que come\u00e7am por questionar as primeiras medidas do Governo &#8211; os primeiros aumentos de impostos ao arrepio do plano maior \u2013 embora de forma compreensiva por se tratar de curar males do anterior Governo. Mas acabam a criticar a acumula\u00e7\u00e3o de sinais de que o Governo n\u00e3o iria intervir na estrutura dos problemas. Para a maioria dos jornalistas, manteve-se a linha divis\u00f3ria entre uma <em>m\u00e1 <\/em>austeridade (imposi\u00e7\u00e3o de cortes com um fim or\u00e7amental) e uma<em> boa <\/em>austeridade (imposi\u00e7\u00e3o de cortes com um fim estrutural). Era a m\u00e1 austeridade que estava a criar recess\u00e3o que impedia o cumprimento das metas or\u00e7amentais. \u201cPrecisamos, como nunca, de destrui\u00e7\u00e3o construtiva e n\u00e3o da habitual destrui\u00e7\u00e3o destrutiva\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos 3 anos de aplica\u00e7\u00e3o do Memorando, esta grelha de an\u00e1lise vai lev\u00e1-los \u2013 na sua maioria \u2013 a defender a coragem de adoptar medidas mais duras: cortes de custos do trabalho, atacar as rendas excessivas de certos sectores, despedir funcion\u00e1rios p\u00fablicos, cortar no \u00e2mbito do Estado Social, flexibilizar despedimentos, tornar poss\u00edvel legalmente a redu\u00e7\u00e3o salarial no sector privado.<\/p>\n<p>A actividade dos jornalistas centra-se muito sobre o fluxo dos acontecimentos e \u00e9 inevit\u00e1vel haver uma tomada de opini\u00e3o sobre o que se est\u00e1 a passar. Mas em todos os momentos, \u00e9 sens\u00edvel uma sintonia de posi\u00e7\u00f5es com os actores que, em cada momento, defenderam as posi\u00e7\u00f5es mais agressivas de ataque ao quadro legal existente que, nalguns casos, era interpretado pelos representantes das institui\u00e7\u00f5es da <em>troika. <\/em><\/p>\n<p>Mas foi essa mesma malha de leitura que, face aos sil\u00eancios do Governo \u00e0s suas press\u00f5es \u2013 \u201cQuantas vezes foi dito e escrito que \u2018falta pol\u00edtica\u2019? Quantas?! E para que serviu? Para nada. Vozes de c\u00e9u n\u00e3o chegam aos burros\u201d \u2013 que os levou a desmoralizar. A cair na desilus\u00e3o. A confessar quebras de expectativas criadas pela aus\u00eancia de resultados, de efic\u00e1cia do Memorando devido \u00e0 sua insuficiente aplica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o devido \u00e0 funda recess\u00e3o criada pela aplica\u00e7\u00e3o do Memorando.<\/p>\n<p>O per\u00edodo final da aplica\u00e7\u00e3o do Memorando resulta numa situa\u00e7\u00e3o paradoxal para os jornalistas. Face aos sinais de retoma econ\u00f3mica e apesar da aus\u00eancia de uma boa aplica\u00e7\u00e3o do Memorando \u2013 falta de vis\u00e3o, cortes sem nexo, austeridade apenas do lado da receita fiscal, aus\u00eancia de uma reforma do Estado -, a maioria dos jornalistas tende a aceitar que o Memorando produziu resultados. Alguns jornalistas fazem mesmo eco da ideia veiculada pelo Banco de Portugal de que, afinal, se est\u00e1 a iniciar uma altera\u00e7\u00e3o estrutural da economia, que apenas ent\u00e3o se iniciou, at\u00e9 porque seria impens\u00e1vel mudar a economia em tr\u00eas anos. E por isso, a situa\u00e7\u00e3o da economia portuguesa continua fr\u00e1gil, apesar da sa\u00edda da <em>troika.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Ap\u00f3s 4,5 anos de aplica\u00e7\u00e3o de um plano de austeridade, que resultou numa quebra pronunciada de actividade, do investimento, do emprego, das expectativas de milhares de vidas, que atirou pessoas para a pobreza e levou a uma subida hist\u00f3rica da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa, receia-se que os jornalistas n\u00e3o tenham retirado as devidas li\u00e7\u00f5es deste processo e at\u00e9 das suas responsabilidades. A sua malha de leitura dos acontecimentos continua intacta. Nada mudou, ao que parece. Aos seus olhos, o Memorando foi mal aplicado, por isso foi ineficaz e, por isso precisamente, continua a justificar a sua aplica\u00e7\u00e3o integral, desta vez sem troika. Um dia. Em breve.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Devido \u00e0 quebra de s\u00e9rie em 2011 do Inqu\u00e9rito ao Emprego, a estimativa foi obtida retropolando os coeficientes de varia\u00e7\u00e3o publicados pelo INE, na nova metodologia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Jo\u00e3o Ramos de Almeida, \u201cGoverno congelou valor do d\u00e9ficed e 2009 contra as previs\u00f5es da DGCI\u201d, 17\/5\/2010, http:\/\/www.publico.pt\/economia\/jornal\/governo-congelou-valor-do-defice-de-2009-contra-as-previsoes-da-dgci-19417010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Shoot the Messenger (Mate-se o mensageiro) &nbsp; \u201cO comportamento de rebanho \u00e9 uma das teorias mais demonstradas da economia. Ele revela que gestores, agentes econ\u00f3micos, pol\u00edticos e banqueiros seguem as modas uns dos outros. 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