{"id":75,"date":"2013-08-24T01:03:07","date_gmt":"2013-08-24T01:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jralmeida.com\/?p=75"},"modified":"2013-08-24T01:03:07","modified_gmt":"2013-08-24T01:03:07","slug":"a-catedral-submersa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jralmeida.com\/?p=75","title":{"rendered":"A catedral submersa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas econ\u00f3micas deviam ser como catedrais. Cada coloca\u00e7\u00e3o de uma pedra deveria seguir um plano e esse plano deveria ser p\u00fablico.<br \/>\nVem isto a prop\u00f3sito do momento infernal que Portugal vive. Por muito que possa parecer irracional, h\u00e1 uma catedral que est\u00e1 na cabe\u00e7a de quem governa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos olhos da maioria, apenas se v\u00ea as sucessivas vagas de desempregados, o corte acentuado dos rendimentos dos pensionistas e assalariados, das presta\u00e7\u00f5es sociais e dos servi\u00e7os p\u00fablicos (que redundam em menores rendimentos dos portugueses).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso alimenta um estado de esp\u00edrito de salve-se quem puder, que leva a que as pessoas apostem menos no esfor\u00e7o colectivo. Rapidamente, pensa-se em como pagar menos impostos. E mais lentamente verificar-se-\u00e1 a fuga \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es para a Seguran\u00e7a Social. Quando em 2001 se fez a reforma da Seguran\u00e7a Social &#8211; considerando que a pens\u00e3o de reforma deveria resultar de TODOS os descontos para o sistema, ao longo de TODA a vida activa &#8211; foi precisamente a pensar que isso induziria as pessoas a descontar. Agora, com o corte das pens\u00f5es apesar dos descontos feitos, induz-se que nem vale a pena descontar. O Estado social acabar\u00e1 encolhido, \u00e0s m\u00e3os dos seus pr\u00f3prios benefici\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o aperto global tem uma catedral submersa. Qual? Pois, nem se me tinha passado pela cabe\u00e7a, mas tornou-se-me claro quando, h\u00e1 uns meses, participei numa sess\u00e3o da firma multinacional de consultoria Deloitte, em que se pretendeu explicar as preocupa\u00e7\u00f5es do OE 2013 antes mesmo de ele ter sido divulgado. Nessa sess\u00e3o, um dos seus fiscalistas assumiu que a pol\u00edtica seguida tem um objectivo: reduzir de tal forma a procura interna que o investimento que puder surgir se canalize para onde h\u00e1 mercado &#8211; o externo. A produ\u00e7\u00e3o virar-se-\u00e1 para a exporta\u00e7\u00e3o. Isso obrigar\u00e1 o tecido produtivo a reestruturar-se e a competir, taco a taco, nos mercados externos. E esse fiscalista dizia isto sorrindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento de um economista liberal tem a eleg\u00e2ncia de uma equa\u00e7\u00e3o. E, ao mesmo tempo, a cegueira de um fan\u00e1tico que n\u00e3o olha a meios para realizar a sua catedral, mesmo que \u00e0 custa do desalojamento de milhares e milhares de pessoas e \u00e0 fome de outras tantas. E pior: tem o m\u00e9rito de mascarar com uma ideia nobre aquilo de que realmente se trata: a desestrutura\u00e7\u00e3o do tecido produtivo nacional permitir\u00e1 novas oportunidades de neg\u00f3cio e rearranjos entre os grupos econ\u00f3micos internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta catedral \u00e9 tanto mais interessante porque representa em 20 anos a segunda tentativa de a erguer, pela mesma pessoa &#8211; o actual ministro das Finan\u00e7as V\u00edtor Gaspar. Na altura, Gaspar assessorava o ent\u00e3o primeiro-ministro Cavaco Silva e ent\u00e3o o ministro das Finan\u00e7as &#8211; e actual comentador &#8211; Miguel Beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de 1990, promoveu-se a liberaliza\u00e7\u00e3o de movimentos de capitais. Em paralelo, substituiu-se a pol\u00edtica cambial de desvaloriza\u00e7\u00e3o deslizante do escudo pela estabiliza\u00e7\u00e3o da cota\u00e7\u00e3o do escudo face ao sistema monet\u00e1rio europeu (SME). Foi a pol\u00edtica de \u201cescudo duro\u201d.<br \/>\nA ideia era a de que essa pol\u00edtica, ao mesmo tempo que reduzia a infla\u00e7\u00e3o, obrigaria as empresas exportadoras de fraca produtividade a reestruturar-se, porque a muleta das desvaloriza\u00e7\u00e3o do escudo deixaria de existir. Ou reestrutura\u00e7\u00e3o ou morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que sucedeu foi que, para manter essa cota\u00e7\u00e3o cambial, as taxas de juro tiveram de seguir as alem\u00e3s, subindo e dificultando as tesourarias das empresas. Segundo, o afluxo de capitais especulativos &#8211; para beneficiar dessas taxas elevadas &#8211; valorizou ainda mais o escudo. Ou seja, apertaram-se as condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito interno e acentuou-se a conjuntura recessiva que j\u00e1 se vivia na Europa. Portugal entrou em recess\u00e3o, subiu o desemprego, fecharam-se empresas, entraram os produtos importados, tomando posi\u00e7\u00f5es no mercado nacional.<br \/>\nEsta pol\u00edtica prosseguiu-se com a ades\u00e3o em 1993 ao SME e, mais tarde, j\u00e1 com os governos Guterres &#8211; sob os planos economicamente indefens\u00e1veis de uma coxa uni\u00e3o monet\u00e1ria europeia &#8211; com a pr\u00f3pria integra\u00e7\u00e3o do escudo no euro, a uma taxa de c\u00e2mbio demasiado valorizada. Sem qualquer estudo de impacto cred\u00edvel, a perda da soberania monet\u00e1ria foi vendida aos portugueses como a moeda das baixas taxas de juro. Todos poderiam relan\u00e7ar-se num novo patamar de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim de uma d\u00e9cada, o resultado est\u00e1 \u00e0 vista. A reestrutura\u00e7\u00e3o do tecido produtivo n\u00e3o foi feita. O cr\u00e9dito f\u00e1cil promoveu a procura interna e, com ela, sobretudo a constru\u00e7\u00e3o e os servi\u00e7os. Com a crise de 2008\/9, a fragilidade dessa estrutura ficou \u00e0 mostra. E agora surge um novo plano: empobre\u00e7a-se o mercado interno. Isso cortar\u00e1 as importa\u00e7\u00f5es e incentivar\u00e1 o investimento virado para o exterior. Venda-se as empresas nacionais, defenda-se a sadia morte das empresas invi\u00e1veis e envelhecidas (vid\u00e9 Ant\u00f3nio Borges e \u00c1lvaro Santos Pereira). E das cinzas, a economia crescer\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crescer\u00e1? Mesmo que Portugal consiga sobreviver \u00e0 irracionalidade da actual pol\u00edtica de ajustamento, ter\u00e1 outro problema pela frente: o de como sobreviver ao espartilho cambial do euro. E sobre isso, veja-se o terr\u00edvel exemplo da unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 em 1990 e da fixa\u00e7\u00e3o de que cada marco alem\u00e3o de leste valia um do ocidente. Em poucos anos, a fixa\u00e7\u00e3o cambial levou ao fecho de milhares de empresas e n\u00e3o evitou o \u00eaxodo em massa de habitantes para o lado ocidental. Todo o tecido empresarial de dezenas de milhares de empresas foi vendido em poucos anos a grupos ocidentais e ainda hoje os \u00edndices de desenvolvimento dessa zona da Alemanha est\u00e3o abaixo do restante pa\u00eds. Uma uni\u00e3o monet\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma panaceia m\u00e1gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bom que haja um plano para a catedral, mas devia ser p\u00fablico, porque nem todas as catedrais s\u00e3o boas para os portugueses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pol\u00edticas econ\u00f3micas deviam ser como catedrais. Cada coloca\u00e7\u00e3o de uma pedra deveria seguir um plano e esse plano deveria ser p\u00fablico. Vem isto a prop\u00f3sito do momento infernal que Portugal vive. 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